sexta-feira, 24 de julho de 2026

Copa do Mundo não é apenas sobre futebol - negritude e multiculturalidade em campos e tempos totalitários.

Recentemente retornei a "O local da cultura", do teórico indiano-britânico Homi Bhabha, ao qual cheguei pela primeira vez no mestrado há mais de uma década. Fiquei e venho refletindo sobre como o valor do multiculturalismo, que ganhou força na segunda metade do século passado, em função da devastação gerada pela 2ª Guerra, está sendo bombardeado por projetos de poder de agora, como o trumpismo, através de tarifaços, guerras sentimentos de ódio. 

 

Sou apaixonado por futebol e, há várias edições de Copa, percebo o aumento da presença de jogadores negros nas seleções europeias, atestando o desfazimento de fronteiras geográfcas e o aumento dos fluxos no mundo globalizado e pós-emancipação de antigas colônias. Com isso, interações entre europeus tradicionais (em fenótipos e culturas) e alteridades (como imigrantes ou já filhos de imigrantes) ocorrem. O mesmo se podendo dizer em relação a outros países do hemisfério Norte, como os Estados Unidos. 

 

E é curioso, pois alas conservadoras na política rejeitam tais fenômenos culturais e étnicos de mescla, mas suas seleções vivem a elevação da qualidade esportiva de suas equipes europeias graças à atuação de afrodescendentes - vide Mabappé, Yamal, Lukaku e tantos outros. A própria seleção dos Estados Unidos, que há séculos têm pessoas negras (que foram escravizadas), apresenta hoje mais indivíduos negros. Assim como Portugal, Espanha, Bélgica, Suécia, Noruega... em linhas gerais, antigas potências colonizadoras que repartiram e exploraram a África e defenderam a superioridade, quando não a projeção, de uma identidade branca pura. 

 

Bhabha observa a emergência de vidas e experiências em fronteiras, sem as identidades fixas enaltecidas pelo Modernidade. E é isso que forças reacionárias não querem - para não terem que dividir espaço, imagem, poder. Mas, ao mesmo tempo, é essa presença (de alteridades, imigrantes, marginalizados históricos e afins) que eles não podem evitar em suas qualidades, em sua contribuições na produção de riquezas. Uma tensão permanente em nossos tempos e de muitos desdobramentos.

 

Copa do Mundo não é apenas sobre futebol.

 

Nos hibridismos culturais em que vivemos, em atual momento de emergências totalitárias, venceu uma seleção espanhola de face surpreendentemente multicultural, pelo menos a mim. Infelizmente, isso não impede a existência do racismo, que se manifesta pelos estádios mundo à fora, como na própria Espanha - vemos isso nos anos recentes de Vini Jr. Espanha de tensões separatistas e étnicas históricas profundas.

 

Impossível terminar essa reflexão sem mencionar o desânimo gerado por uma sede de Copa em país hoje tão protagonismo em atrasos civilizacionais, cujo presidente foi capaz de mandar anular um cartão vermelho de sua seleção. Assim como é inevitável encerrar sem registrar o encanto que, de modo paradoxal, a mesma edição de Copa atestou quanto às seleções africanas, que, cada vez mais maduras, competem para ir longe, como o fez Cabo Verde frente à vice-campeã Argentina. Seleções africanas cujas dificuldades histórias mantém relação inequívoca com as explorações sofridas por seu continente em função dos colonialismos.

 

Por fim, penso que seleções multiculturais e seleções africanas emergentes podem contribuir, de alguma maneira, para a mudança de mentalidades retrógradas. Seria o futebol uma eficiente arma pacífica de contra-ataque multicultural?

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