Recentemente
retornei a "O local da cultura", do teórico indiano-britânico Homi
Bhabha, ao qual cheguei pela primeira vez no mestrado há mais de uma década.
Fiquei e venho refletindo sobre como o valor do multiculturalismo, que ganhou
força na segunda metade do século passado, em função da devastação gerada pela
2ª Guerra, está sendo bombardeado por projetos de poder de agora, como o
trumpismo, através de tarifaços, guerras sentimentos de ódio.
Sou
apaixonado por futebol e, há várias edições de Copa, percebo o aumento da
presença de jogadores negros nas seleções europeias, atestando o desfazimento
de fronteiras geográfcas e o aumento dos fluxos no mundo globalizado e
pós-emancipação de antigas colônias. Com isso, interações entre europeus
tradicionais (em fenótipos e culturas) e alteridades (como imigrantes ou já
filhos de imigrantes) ocorrem. O mesmo se podendo dizer em relação a outros
países do hemisfério Norte, como os Estados Unidos.
E
é curioso, pois alas conservadoras na política rejeitam tais fenômenos
culturais e étnicos de mescla, mas suas seleções vivem a elevação da qualidade
esportiva de suas equipes europeias graças à atuação de afrodescendentes - vide
Mabappé, Yamal, Lukaku e tantos outros. A própria seleção dos Estados Unidos,
que há séculos têm pessoas negras (que foram escravizadas), apresenta hoje mais
indivíduos negros. Assim como Portugal, Espanha, Bélgica, Suécia, Noruega... em
linhas gerais, antigas potências colonizadoras que repartiram e exploraram a
África e defenderam a superioridade, quando não a projeção, de uma identidade
branca pura.
Bhabha
observa a emergência de vidas e experiências em fronteiras, sem as identidades
fixas enaltecidas pelo Modernidade. E é isso que forças reacionárias não querem
- para não terem que dividir espaço, imagem, poder. Mas, ao mesmo tempo, é essa
presença (de alteridades, imigrantes, marginalizados históricos e afins) que
eles não podem evitar em suas qualidades, em sua contribuições na produção de
riquezas. Uma tensão permanente em nossos tempos e de muitos desdobramentos.
Copa
do Mundo não é apenas sobre futebol.
Nos
hibridismos culturais em que vivemos, em atual momento de emergências
totalitárias, venceu uma seleção espanhola de face surpreendentemente
multicultural, pelo menos a mim. Infelizmente, isso não impede a existência do
racismo, que se manifesta pelos estádios mundo à fora, como na própria Espanha
- vemos isso nos anos recentes de Vini Jr. Espanha de tensões separatistas e
étnicas históricas profundas.
Impossível
terminar essa reflexão sem mencionar o desânimo gerado por uma sede de Copa em
país hoje tão protagonismo em atrasos civilizacionais, cujo presidente foi
capaz de mandar anular um cartão vermelho de sua seleção. Assim como é
inevitável encerrar sem registrar o encanto que, de modo paradoxal, a mesma
edição de Copa atestou quanto às seleções africanas, que, cada vez mais
maduras, competem para ir longe, como o fez Cabo Verde frente à vice-campeã
Argentina. Seleções africanas cujas dificuldades histórias mantém relação
inequívoca com as explorações sofridas por seu continente em função dos
colonialismos.
Por
fim, penso que seleções multiculturais e seleções africanas emergentes podem
contribuir, de alguma maneira, para a mudança de mentalidades retrógradas. Seria o futebol uma eficiente arma pacífica de contra-ataque multicultural?