quarta-feira, 11 de março de 2026

Sobre o filme "Valor sentimental".


Um filme sobre atores, diretores, peças de teatro e... filmes. Mas quem não é do ramo, não se preocupe: há questões humanas ligadas a dramas familiares que enlaçam a todos.


A relação atriz-diretor pode ser especialmente difícil quando ambos são pai e filha de contexto familiar conturbado. Na história, pai e filha (Renate Reinsve) são o diretor e a atriz de nova e provavelmente última produção de Gustav (Stellan Skarsgard), cineasta e pai ausente. 


Em meio aos destroços de memórias afetivas delicadas (de despedidas e ausências traumáticas), mantém-se de pé um símbolo (legítimo personagem, que pontua todo o filme), a casa, que vem lembrá-los de seus vínculos, carregando consigo lembranças que fazem doer e alguma tentativa de fazer dela um lar, valor sentimental sadio e minimamente harmônico. Algo que seja promessa de vida, literalmente.


O filme dirigido por Joachim Trier traz inúmeras referências a situações que quem é do meio artístico, reconhece, de imediato: da ansiedade antes de entrar em cena; necessidade de produzir os próprios trabalhos e não depender de convites para trabalhar; diretores que não gostam de ir ao teatro assistir aos atores; ao pragmatismo de mercado representado na trama por uma citadíssima Netflix. Tudo temperado com humor e alguma acidez.


A trama ambientada em Oslo não deixa de evocar referências do teatro e do cinema escandinavo. A protagonista chama Nora, mesmo nome da protagonista desbravadora de “Casa de Bonecas”, do norueguês Henrik Ibsen. Há uma densidade psicológica que remete também a nomes como o cineasta sueco Ingmar Bergman.



Sem dar spoiller, há dois golpes de cinema no filme que me deixaram estupefato, o primeiro mais cerebral e o segundo com particular emoção, ao final - quando já estamos em profunda emoção. Os dois "golpes" associados à linha tênue que "confunde" ficção e realidade, atriz e personagem. Truque usado com delicadeza para expressar, através da montagem e de planos reveladores, a proposta do roteiro.


“Valor sentimental” é filme sobre o poder de reaproximação de uma família por meio da arte. Toca em questões e sentimentos realmente profundos. Elenco de alto nível (destacando também a outra “filha”, Agnes, vivida por Inga Ibsdotter Lileaas).Trilha sonora surpreendente, especialmente a canção final, “Cannok Chase”, de Labi Siffre).






sábado, 28 de fevereiro de 2026

Sobre o filme "O agente secreto".

O insólito é algo que pode e costuma ser atraente em arte, pois nos mobiliza a querer decifrar o que há diante de nós. em “O agente secreto”, ficamos atentos a um enredo que expõe violências e estranhezas apresentadas por um roteiro complexo (um dos diversos méritos do filme) que, de forma gradativa, vai nos revelando trama produzida no contexto da ditadura civil-militar (1964-1985). Trama essa que dialoga com os gêneros de ação, suspense e até terror - o que surpreende o espectador. E é curioso: o ambiente de caos e terror é, no fundo, propagado por estrutura e figuras bastante reais: os agentes militares. “Bacurau”, outro filme do diretor Kléber Mendonça Filho, também nos coloca diante da peculiaridade de sua forma de fazer cinema, deslocando o nosso olhar de gêneros, estilos e procedimentos fílmicos padronizados (por meio de planos que se estendem na captura da expressão de atores e figurantes, por exemplo). Há que se destacar o traço filmográfico do diretor de trazer aspectos culturais de sua cidade natal, Recife, permitindo-nos conhecer um elenco, ao mesmo tempo de diversas regiões do país (e até estrangeiro) e, especialmente, nordestino, que preenche a tela com atuações de extrema técnica e personalidade. Do mesmo modo, reconhecemos como a identidade local está presente por meio da trilha sonora, em que se inserem também canções internacionais marcantes da década de 1970, em que a trama ocorre. Wagner Moura, após maior parte do tempo como o agente secreto em questão, traz, na parte final do longa, uma composição que impressiona pelo caminho totalmente diverso do anterior, em um naturalismo que impressiona pela maneira de dizer e de agir - quase como se não fizesse esforço algum (deixando evidente a existência de outro ser!). No entanto, há trabalho e um trabalho que reside em economia e síntese, além de confiança e segurança na escolha.

Neste novo filme brasileiro sobre o regime militar e seu autoritarismo (após o também exitoso "Ainda estou aqui"), o tema causador de todo o conflito revela-se ligado ao ambiente da ciência. Um casal de pesquisadores (vividos por Moura e Alice Carvalho) são perseguidos por uma estrutura privada que quer conter a produção científica universitária no país e seus avanços. Reflexão importante em qualquer tempo dentro de um país de estrutura colonizada, como a brasileira. 

"O agente secreto", nos cinemas. Assista.

Izak Dahora