Blog Dahora
destinado à escrita poética que se estende em reflexões sobre arte e cultura, além de divagações e pensamentos sobre trabalhos artísticos
sábado, 28 de fevereiro de 2026
Sobre o filme "O agente secreto".
quarta-feira, 5 de março de 2025
"Magia e técnica, arte e política" - ou sobre o ano em que as escolas enfatizaram negritude, religiosidade e o paradoxo do encantamento
Imagem 1: Abre-alas da Grande Rio. Uso intensivo e dramático da iluminação e balões como seres marinhos. Fonte: Carnaval do Rio.
Desfile de escola de samba é teatralidade, mas não apenas teatralidade. É, antes de qualquer definição, expressão das verdades e códigos culturais dos grupos humanos que a praticam. Grupos tradicionalmente mantenedores de valores ancestrais de cosmopercepões afrodiaspóricas (e também ameríndias), que se materializam em forma ritual e que, para tal concretização, utilizam-se de elementos estéticos.
Em contexto em que manifestações de racismo religioso proliferam, as
escolas de samba, como instituições dinâmicas que são, nascidas da negritude carioca e
atentas à sociedade, voltam-se para seus valores mais essenciais. Considerado isso, tal movimento de resgate e afirmação dos próprios valores é compreensível, necessário e político (no melhor e
mais amplo sentido do termo).
Diversas escolas afirmaram ser macumbeiras, quilombos ou de terreiros (e devotadas às suas divindades já comumente apresentadas) em seus sambas-enredo neste ano - a começar pela Unidos de Padre Miguel, que abriu os desfiles de forma imponente na visualidade, madura na organização e com um belíssimo samba ("Vila Vintém é terra de macumbeiro").
Mesmo quem não pratique ou não se interesse por esse universo cultural, pode(ria) desenvolver consciência mínima acerca
da gênese da instituição escola de samba e do quanto sua fé é pressionada por
projetos colonialistas há, pelo menos, cinco séculos. A produção cultural das Escolas - vale sempre destacar o termo proposto por Ismael -, ano a ano, é, portanto, ao mesmo tempo proposição, ensino, resposta e interação ao que ocorre na
sua comunidade, na cidade, na sociedade (brasileira) e no mundo.
Magia e técnica
Há quem veja arte e tecnologia como inconciliáveis. Doce engano. Os desfiles provam que, equilibrada a dosagem de cada um desses elementos – e, fundamentalmente, se a técnica estiver a serviço do que se sente, pensa e propõe –, ambos foram e serão sempre íntimos um do outro. Assim têm sido também ao longo da História da arte, do teatro, do espetáculo.
Neste sentido, a magia do teatro ritual das escolas de samba é
particularmente encantadora, como o que a Viradouro exibiu em seu abre-las,
cuja holografia diante do protagonista Malunguinho sugere o mágico e o transe por
ele acionado de maneira tão verossímil. Outro exemplo é o uso intensivo
que a Grande Rio fez, mais uma vez, da iluminação, desta vez para traduzir a
tormenta marítima geradora do naufrágio das três princesas turcas do enredo assinado por Gabriel Haddad e Leonardo Bora. A junção de
iluminação, movimento e atuação foi algo perturbador, conforme o mito narra e
sugere.
Ainda no domínio de arte/tecnologia, houve também os chapéus da comissão de frente da Viradouro (dos coreógrafos Priscila Mota e Rodrigo Negri) - no contexto mágico e espiritual da ancestralidade do samba - e as pipas da comissão de frente dos "crias" da Mangueira (dos coreógrafos Lucas Maciel e Karina Dias). Em ambas as comissões havia a operação de drones para tais efeitos combinados à potente expressividade corporal de bailarinos.
Imagem 2: Arte da Rio Carnaval em que se pode observar
a holografia diante da representação escultórica do líder quilombola Reis
Malunguinho. Fonte: Rio Carnaval.
O desafio da escola de samba é usar da técnica sem perder a "aura", a autenticidade, como diria o filósofo Walter Benjamin. A experiência da escola de samba, que é fenômeno que nos restitui a percepção de nossa presença, de nossa existência encarnada, do congraçamento coletivo e da catarse. A nossa tragédia. A nossa comédia. A nossa ópera.
Os mais variados teatros (dos oficiais aos marginalizados) normalmente demandam e produzem técnica para tornar seus conteúdos possíveis. A produção do encantamento demanda técnica. Os desfiles nos provam isso a cada ano com suas equipes de projetistas, engenheiros e demais técnicos que tornam palpáveis ideias e sensações artísticas.
Mesmo quando assentada de modo fundamental no corpo – o corpo que samba! - a expressão requer e desenvolve um saber, ciência. No desencanto da sociedade capitalista pós-industrial, as ESCOLAS de samba nos ensinam que o fabrico do encantamento engendra mistério e razão.
Polêmica e teatro
Protagonista daquela que foi, talvez, a maior polêmica do carnaval –
desdobrando o debate sobre a presença, para determinadas pessoas, ostensiva de enredos afro ou sobre negritude –, o que se pode afirmar do carnavalesco da
Vila Isabel, do ponto de vista artístico, é que ele foi na Avenida um Paulo Barros em
estado puro.
Assistimos a recursos que, embora já conhecidos do carnavalesco, demonstraram neste ano combinação feliz com uma Vila leve e brincante – Vila que, de modo curioso, tem histórico e perícia em enredos-afro marcantes, como Kizomba, festa da raça. A questão que fica para mim é de talvez uma difícil compatibilidade entre carnavalesco e escola. Entretanto, dialogando com ícones da cultura de massa e do cinema hollywoodiano, efeitos "barrianos" como cadafalsos que se abrem e fecham, revelando e escondendo integrantes; elementos humanos complementando, formando e informando alegorias por meio de sua presença e movimentos estiveram atuantes. Exemplo disso foi a representação do mar e seus seres marinhos em uma das alegorias. O arranjo da direção musical com constantes desenhos de sanfona causou também efeito singular e curioso ao desfile.
Mesmo sempre questionado por seu descolamento de um ideal mais
tradicional de escola de samba, o fato é que Paulo Barros, naquilo que sabe e
gosta de fazer, tende a carnavalizar e parece ainda encontrar um espaço para si e para o seu público.
Cabe dizer que a polêmica gerada pela fala de Barros é complexa, atravessada por equívocos e precisa ser refletida com muitas nuances. Vale um texto exclusivo, o que não é o foco deste que você lê agora.
Metalinguagem e "falar de si"
As duas escolas mais tradicionais
e mais famosas, Mangueira e Portela, uma por conteúdo e outra por forma, trouxeram
elementos que falam sobre a própria escola de samba, o que, aliás, as
agremiações fazem bem – e isso não é uma crítica nem ironia; é político e
identitário falar de si.
O paulista Sidney França propôs enredo cariocentrado ao abordar a presença
física e simbólica bantu na constituição do Rio de Janeiro – e do Brasil.
Abordar os bantus (maior parte das levas de africanos e africanas escravizados para
o país), que foram objetificados e mortificados "à flor da terra" (referência
aos inúmeros cadáveres que ficavam expostos no "cemitério"/depósito de escravizados),
sobretudo nos arredores do cais do Valongo (a "Pequena África"), é abordar a própria essência das
escolas de samba, cujo termo "samba" e sua ancestralidade provém do grupo etno-linguístico bantu e
deriva do termo quimbundo "semba" (umbigada).
Imagem 3: Representação de "cria" da Mangueira triunfando na Sapucaí.
Fonte: @leoqueirozfoto para Rio Carnaval (@riocarnaval).
Portela, proposta por André Rodrigues e Antônio Gonzaga, encontrou o seu garbo, altivez e tradicionalismo característicos na homenagem ao compositor e cantor
Milton Nascimento, nascido no Rio mas esculpido (em corpo e voz) entre as montanhas de Minas, entre toda a tradição do Barroco mineiro, crenças e formas religiosas (de
oratórios, altares, andores, porta-estandartes) assim como dramas populares (como
congados e demais procissões afro-católicas). O que é uma escola de samba senão
uma procissão de base negra de feições sagradas e profanas?
Passarela como terreiro
No carnaval das (doze) apresentações divididas em três noites (mudança justificada
pela organização para uma iluminação por igual a todas as apresentações),
prosseguimento ao uso de iluminação específica para cada desfile e ampliação do tempo de desfile
de 70 para 80 minutos por escola, tripés alegóricos foram reafirmados como
palcos das comissões de frente, sob diversos modos, demonstrando possivelmente uma busca de
uso mais intensivo e espacializado da iluminação, elevação da altura em relação às arquibancadas e recursos/soluções cênicas por meio de sua estrutura interna e externa, além de variação das possibilidades narrativas entre baixo/chão e alto/tripé.
A coreografia dos casais de mestre-sala e porta-bandeira também seguiram buscando adequação de movimentos aos enredos, como nos últimos anos. A mim me chamou a atenção a assimilação de elementos coreográficos do carimbó pela dança do primeiro casal da Grande Rio (Daniel Werneck e Taciana Couto). Que dança vigorosa e criativa.
Este texto não tem a finalidade de abordar elementos de todas as escolas, mas de destacar momentos ligados, sobretudo, aos aspectos teatrais, cênicos e performáticos da edição de 2025 dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial (RJ), que se destacaram aos olhos deste pesquisador, de onde este os podia observar. Sempre faltarão momentos e mesmo escolas citados em um texto como esse.
Cabe não esquecer que enredos e momentos como do desfile sobre Xica Manicongo (assinado por Jack Vasconcelos), a primeira travesti do Brasil documentada, são históricos, tanto pelo ineditismo quanto pela relevância da causa social em país que mais mata pessoas trans no mundo, além da intensidade performática e dramática apresentada já na comissão de frente. Além do mais, se escolas de samba são espaços plurais, que acolhem em seus espaços o negro, a mulher, a comunidade LGBTQIA+, é preciso que suas temáticas façam o mesmo.
Na teatralidade ancestral e ritual da escola de samba, em ano de particular e ainda mais intensa presença da temática religiosa afro, agremiações reafirmaram o encantamento das cosmopercepções afrodiaspóricas, que faz de cada desfile um grande terreiro, como a comissão de frente da Beija-Flor (desenvolvida por Jorge Teixeira e Saulo Finelon, coreógrafos, e Veronica Valle, designer) exemplificou para representar o diretor de carnaval Laíla (Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, 1943-2021), um sinônimo de escola de samba. E no mesmo ano da despedida do intérprete Neguinho da Beija-Flor. Ou seja, no carnaval 2025 não faltou emoção.
Imagem 4: Representação de Laíla no desfile da Beija-Flor. Fonte: Alex Ferro / Riotur.
Termino lembrando do que disse um griot: "quando não souber para onde ir, lembre-se de onde veio". A mim me parece que foi mais ou menos isso que as escolas procuraram fazer neste ano. Com a diferença de que elas hoje sabem muito mais para onde pretendem ir do que alguns anos atrás.
Izak Dahora
Imagem 5: Visão da Marquês de Sapucaí.
Fonte: Rio Carnaval.
*Desfilaram no Grupo Especial de 2025 (RJ) as escolas Unidos de Padre Miguel, Imperatriz Leopoldinense, Viradouro, Mangueira, Unidos da Tijuca, Beija-flor, Salgueiro, Vila Isabel, Mocidade Independente de Padre Miguel, Paraíso do Tuiuti, Grande Rio e Portela
*Esta publicação não tem fins comerciais.
Referências:
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Tradução: Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
O carnaval pra mim - um desfile de personagens e memórias.
Fui criança durante os anos 1990 e aprendi a gostar de escola de samba assistindo e ouvindo os comentários nas transmissões de TV feitos por figuras como Albino Pinheiro, Leci Brandão, Mauro Monteiro, Maria Augusta, Haroldo Costa, Fernando Pamplona. “Essa gente do carnaval” e de muita bagagem cultural ajudou a moldar as minhas preferências não só culturais como também estéticas. Lembro do Fernando Vanucci narrando os desfiles (aliás, “alô você?!”, por onde anda?); recordo das muitas vitórias de Imperatriz e Mocidade daqueles anos através da sua narração.
Em meus delírios carnavalescos mais profundos, ouço uma orquestra de violinos e repiques e surdos e tamborins...
(Poucos prazeres são pra mim tão singulares quanto poder caminhar na Avenida Presidente Vargas com a maior tranquilidade nos dias de desfiles e sem a menor preocupação com trânsito. Viva a suspensão e a inversão carnavalescas sobre a ordem cotidiana!).
Nietzsche e Wagner trataram do popular como um reservatório de forças e impulsos espontâneos de que a sociedade moderna se divorciou, apostando em uma relação racionalista e arbitrária com a cultura. Retornar àquelas forças seria vital para a renovação da arte e da cultura modernas, pautadas por valores comerciais e interesses pessoais, segundo aqueles pensadores alemães. No carnaval, renovo minhas forças de criatividade e alegria junto aos que encontram nesse período oportunidade potencializada de extravasamento desses impulsos autênticos, dessa ânsia e dessa fome de expressão (necessariamente coletiva) que me parece ser uma condição do incontrolável do humano.
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
100 anos de um artista genial!
Já escrevi por aqui que flerto de modo contumaz com o passado. Escrevi isso ao narrar minhas lembranças do Carlos Manga, que partiu recentemente, figura que, aliás, dirigiu grandes sucessos do meu homenageado deste texto, Grande Otelo.
Também havia o preconceito de cor que tanto sofreu nos vários lugares onde brilhou...Mas sobre isso não escreverei aqui. Nem de seus problemas pessoais. Quero brindar à vida e a presença de Otelo na história do teatro, da TV, do cinema e do meu imaginário.
Quero brindar a Otelo em "Macunaíma", que segundo uma sintética e sensível versão do próprio - um intelectual - e em entrevista não me lembro para quem, representava uma espécie de elo entre a chanchada e o cinema novo, dois grandes momentos do cinema brasileiro - por motivos opostos, e que, por ideologia e certo preconceito, não poderiam aproximar-se um do outro, na visão de muitos, mas que Joaquim Pedro de Andrade soube combinar, vendo na obra de Mário de Andrade, prospectada no Brasil profundo, um material que revela nosso espírito e vadio irreverente de país tropical e nossas mazelas e incoerências de povo colonizado.
Quero brindar a Otelo respeitado por Orson Welles, que disse que nosso Great Otelo (seu nome foi criado por Jardel Jércolis) era o melhor ator do mundo.
Voltando mais no tempo, quero fazer uma libação a Otelo em "Matar ou correr", "Dupla do barulho", até o Seu Eustáquio da "Escolinha do Professor Raimundo", programa da minha infância, em que Otelo não tinha um papel da sua estatura artística, mas que, de forma nostálgica, era como homenagem ao seu talento e verve pueril com aquelas caretas de antigas peças e filmes "Aqui! Qüi queres?").
Apesar do Brasil ser um país não muito afeito à memória do seus grandes nomes, o nome desse artista resiste, como no texto deste fã que se tornou artista tendo-o como ícone. Resiste, apesar dos pesares, como o estado de precariedade do teatro que leva seu nome em Uberlândia (antiga Uberabinha), sua cidade natal.
Otelo é referência Artista que reunia as grandes "escolas" na fomação de ser de palco no Brasil e em qualquer lugar: o circo, o teatro, o cinema. Um dos maiores artista brasileiros do século XX.
Falar de Otelo é falar sobre o meu presente porque é das referências permanentes. Quando eu fazia o meu Saci, lá no Sítio do Picapau Amarelo, pensava muito nele!
Neste mês de outubro, no dia 18 de outubro, Grande Otelo, se vivo estivesse, faria 100 anos. Mas, com todo o seu legado, quem disse que ele não está entre nós!
sábado, 3 de outubro de 2015
Na turnê de "Contra o vento", uma experiência de Amizade com o público de BH
Robson abriu aquele encontro apresentando para nós o conceito e o sentido do teatro para o grupo com duas palavras que muito me tocaram: a "amizade", norteadora do princípio ético de convivência por eles mantido em sua "travessia". Ouvi-lo falar me deixou fascinado, pois com aquelas duas palavras emoldurou, a meu ver, uma imagem ideal e possível do teatro: um lugar onde nos reunimos por afinidades (do grego philia), dando-nos um sentido de pertencimento no mundo capaz de nos manter na luta constante pelos nossos sonhos (que, ansiados coletivamente, tornam-se ainda mais poderosos e possíveis), e num entendimento da vida como um caminho, ou "Travessia", a ser percorrido - Róbson, como um bom mineiro, fez uso, coincidentemente ou não, de termo consagrado na literatura brasileira pelo mineiro de Cordisburgo Guimarães Rosa, no seu "Grande sertão: veredas".
*****************************
Um rápida digressão.
O sentido ético que nutre o "Palavra Viva" cristalizado na amizade, incitado por seu professor, fez-me lembrar de Giorgio Agambem, filósofo italiano que no livro "O que é o contemporâneo?" resgata o sentido de filosofia no tempo dos antigos. Explica ele que na Grécia pensamento e amizade eram valores estreitos, relação presumida. A própria filosofia, em sua etmologia, contém a amizade (filo=afinidade ou amizade + sofia=saber). Ou seja, a construção do conhecimento chamava a prática coletiva, amistosa, e vice-versa.
A este pensamento fui instado pelas palavras generosas do professor Robson. Que positividade para o mundo vermos estética e ética andando de mãos dadas! Todo o saber teórico e sensível do teatro fustigado pela amizade.
Aliás, que coincidência, tive na minha adolescência um professor Robson (Almeida) que todo dia batia na porta da sala de aula para dizer coisas como "Trate as pessoas como gostaria de ser tratado", dentre outras, chamando-nos sempre, a mim e meus colegas e amigos, para irmos além de usarmos o ambiente da escola como lugar de saber científico apenas. O lugar do saber precisava, na visão dele, ser um espaço de sensibilização do humano.
*****************************
Suas perguntas ajudaram-nos a esclarecer questões do próprio espetáculo, revelaram a percepção aguda para detalhes da representação, como o apontamento da música, da nudez e da fragmentação como potências definidoras do espetáculo. Fomos lidos por eles, jovens espectadores atentos que já haviam debatido as questões da peça em sala de aula durante a semana. Vários deles assistiram à peça diversas vezes.
Como ator, professor e pesquisador, fui pensando, ao vê-los, na importância dos caminhos da arte-educação. Em outro encontro com o público de BH, um frei (!) de Betim, que nos assistiu (também mais de uma vez, disse-nos preferir estudar a filosofia e a teologia através da representação de peças a ter que acessá-las por meio da gravidade e do silêncio que a experiencia dos livros pode comportar - ainda mais dentro do ambiente de contrição de um monastério.
O teatro, com o sensualismo que lhe é defindor (meio da ação, da palavra, do som, do visual...), toma-nos de assalto a sensibilidade, colocando-nos num jogo de interatividade e reflexão (epidérmica, emocional e intelectual). Mas há que se estar disposto para jogá-lo, pois, como já dizia o diretor polonês Tadeusz Kantor, "é impossível passar impune pelo teatro". É preciso coração e mente abertos!
Ao fim do encontro, quando os estudantes demonstraram sua expressividade através de músicas de sua própria autoria, movimentos coreografados e interpretação de textos (que me pareceram poemas), ficaram claros os efeitos de um trabalho continuado de formação ética e estética por meio da arte e, especialmente, do teatro, esta arte socializante por natureza. Seus versos eram como palavras de ordem, incitando a coragem, a determinação e a ousadia nos quais transpareciam a paixão pela arte e pelo teatro.
"Inconfidentes" nas emoções encarnadas e vivas em palavras - imagino que o espírito mineiro deve ter-se feito presente -, transbordaram encantamento, fazendo-nos ter mais motivação para o nosso trabalho. Suspeito até que eles nos tenham surpreendido mais do que nós a eles.
Escrever sobre arte, juventude, amizade, viagem, travessia e mineiros só poderia me fazer desaguar no Clube da Esquina:
Viagem de ventania
(...)
Porque se chamava homem
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
(...)"
terça-feira, 29 de setembro de 2015
Crise!
Me coloco permanente no lugar da crise
Porque só dela é que posso sair algo novo.
Por isso acho sempre que não acho
Para ver se me acho
Aonde saberei que não sabia.
Filosofia.
É me achando vazio que
intuitivamente, mais que em movimento, ajo
e já, tão logo, de repente,
me descubro de algo novo preenchido.
(Izak Dahora)
terça-feira, 22 de setembro de 2015
A 'obra de arte total' do carnaval: multiplicidade artística e hibridação nos desfiles contemporâneos das escolas de samba"
A comissão de frente da Vila Isabel (2009) mostra a minúcia da composição
teatral empregada nos desfiles em representação da Commedia dell'arte.Toda a dilatação gestual
e expressiva denota o quanto a forma dos desfiles aproximam-se da noção estética da ópera,
grandiosa e excessiva por natureza.
Fonte da imagem: extra.globo.com
Fonte da imagem: carnaval.uol.com.br
A tela "Samba"(1925), do pintor Di Cavalcanti, exemplifica como o olhar da elite intelectual passou
a enxergar de forma positiva e a valorizar os aspectos das culturas popular e negra
como elementos formadores da identidade brasileira com o advento
da visão modernista.
Fonte da imagem: www.olimpiadadehistoria.com.br
As escolas de samba afirmam o seu "barroquismo" (qualidade semelhante a das origens da ópera no século XVI) através de suas estruturas alegóricas (que tendem à própria fragmentação do discurso) tamanho o detalhamento formal (de altos e baixos, dobras, reentrâncias etc).
Fonte da imagem: oglobo.globo.com
O uso intensivo de tecnologias de última geração confirmam a inserção dos desfiles nas formas e nos discursos da contemporaneidade. No abre-alas do Salgueiro (2011), vemos a imagem de parte
da plateia projetada em um telão de led, demonstrando uma busca de (re)inserção do público
em um cada vez mais fechado sistema de representação.
Fonte da imagem: veja.abril.com.br
"Que horas ela volta?"
Minhas memórias do Manga
Minhas memórias do Manga iniciam-se, portanto, antes mesmo de conhece-lo pessoalmente.
Lembro de receber um elogio do Manga ao meu Saci, acho que numa festa organizada pela produção: "O seu olhão está bom, hein! Continua, continua!"
O programa ainda ganharia prêmio e eu veria o Manga todo bem vestido, como sempre em ocasiões especiais, na Casa Julieta de Serpa, no Flamengo, orgulhoso da láurea à obra de Monterio Lobato.
Quando a temporada e aqueles seis anos de "Sítio" chegaram ao fim, a necessidade de seguir trabalhando e a incerteza quanto ao que viria profissionalmente, me fizeram criar coragem e chegar a Manga e Ulysses para dizer: "Soube que irão fazer uma novela. Me levem! Preciso trabalhar!" Eu estava chegando aos dezoito, dezenove anos, e naquela altura, depois de muitos anos empregado e com uma idade, em que a maioria das pessoas começam efetivamente a trabalhar, eu não queria nem podia ficar parado.
-Enquanto eu respirar, você pode ligar pra mim! - num modo bem Manga de ser e que muito me honra e emociona porque "Eterna magia" foi o meu primeiro contrato como adulto, com o qual pude mudar de casa para o Rio de Janeiro, o início de um novo ciclo na minha vida.
Quando entrei na novela, Manga me chamou em sua sala e disse:
-Não falei que você ia fazer a minha novela? Prometi e cumpri.
A personalidade de Manga era forte, daquelas de que era infinitamente melhor receber elogios, pois sua voz e seu rigor eram igualmente fortes, explosivos. Tive a felicidade de dois encontros profissionais com ele nos quais senti a grandeza de sua experiência e também de seu carinho e de sua generosidade comigo e com outros colegas.
Que honra eu tive de trabalhar com o Manga e participar de seus dois últimos trabalhos! Levarei esta lembrança para toda a vida.
"Manguianas":
- A "praia" do Manga era mesmo o cinema, sua paixão! Quando assumiu o "Sítio", lembro dele dizer que não gostava muito de teatro. E falava abertamente, sem medo. Há tanta gente que não gosta de teatro e tem medo de dizer que não gosta. É um direito.
- Há um pensamento dele que nunca esqueci. Ele disse, certa vez: "O que o diretor não entende é que todo autor é um pouco diretor; e o que todo autor não entende é que todo diretor é também um pouco autor". Achei esse pensamento curiosíssimo, e logo o estendi, até hoje, à relação diretor-produtor e ator-diretor.




%2019.52.47_f96abf6f.jpg)

