terça-feira, 27 de julho de 2010

Ainda sobre a saudade...


... (a voz embarga)   ...


"Certos mitos são efêmeros". Me auto-refiro pois com essa frase inicio um poema (postado no último dia 8) que nasceu de um estranho sentimento de vazio que me acompanha há muito, e que está longe de ser uma exclusividade minha. Quem não sente a lacuna da ausência em vida de alguém que nos marca? No caso dos grandes artistas, escritores ou personalidades, talvez isso seja até mais forte, porque embora não compartilhemos com esses mitos o sangue, esses se tornam íntimos pela forma como marcam as nossas vidas através do seu pensamento, da sua visão, do seu gesto.
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Trabalhar na minha mente a saudade de artistas – muitos dos quais partiram antes mesmo de eu vir ao mundo – me surpreende a cada vez que penso no assunto e me intriga. Como resolver a falta que uma Elis Regina desperta, insuperável na força e no brilho de sua voz? Como manter o tom ante a arquitetura simples e sofisticada da música de Antonio Carlos Jobim? Ou ante Gonzaguinha, contundente e de uma integridade humana ímpar?
Outros muitos que não vivi seus tempos e ainda assim me formam como ser humano e artista: Vianinha (que um dia o veterano e querido Flávio Migliaccio me disse que o dramaturgo, seu grande colega dos tempos de CPC e Teatro de Arena, parecia tanto saber que iria morrer cedo, que por isso trabalhava ardorosamente por um país melhor através do teatro); ou  o próprio vulto de Cacilda Becker, que atou no palco entregando a vida por uma expressão profundamente humana das personagens e fora do mesmo pela modernização do nosso teatro, naqueles anos quarenta e cinquenta ainda demasiado amador. Cacilda, após enfarte, morreu praticamente no palco "Esperando Godot", sua última peça. Dedicação extrema que Paulo Autran também comprovou a vida inteira, desfechando-a quando saiu do palco direto para o hospital e lá durar uns poucos meses antes de morrer.

E Oscarito, e Grande Otelo, tantos...e ao mesmo tempo tão poucos...
Volta e meia me pergunto: como encarar uma corrida automobilística hoje sem evocar Ayrton Sena, que me reporta à primeira infância quando o assistia correndo pela tv ao mesmo tempo que comia geleia de mocotó com farinha láctea nas manhãs de domingo? A morte de Ayrton é emblema de como essas figuras normalmente saem de nossas vidas subitamente, ou mesmo fatidicamente.

Mas no fundo penso que esses mitos não poderiam (nem podem) viver muito. É muita carga emcocional, intensidade de paixão... Imaginemos um Vinícius (de Moraes) hoje com cem anos de idade, sem poder sair de cama a contemplar as garotas de Ipanema, a amizade, a boemia e a vida que expressou tão bem em verso e canção? Seria até injusto! Por isso intuo, cá, auxiliado pelo meu lado que respira o mistéirio das coisas, "invisível mas presente" que todos esses que citei e todos os outros de que você lembra agora ao ler esse texto são como seres de um outro planeta, uma outra galáxia talvez, que vem aqui nos deixar alguns recadinhos importantes e partem de volta para onde vieram ou para onde não sei. Mas o legado deixado pelos que vivem a vida intensamente fica e inspira.  
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O mito é tão grande que nos lembra que também nele há o frágil, o breve:

O mytho é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo - 
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
...
                    (Fernando Pessoa)


Izak Dahora

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A cinergética do mito

Certos mitos são efêmeros.
Passam por nós com a fugacidade de um cometa,
vivem como que dez anos a mil
e deixam a todos na mais vasta orfandade:
todos uma legião de séquios
a chamar Humanidade.

Mas para isso – a falta
dotou Deus o homem da memória
para a contemplação eterna do grande,
para a saudade desmesurada e infinita
de mesmo quem ao mito não assistiu.

Seres que elevam a alma do mundo.
Seres que numa encruzilhada de entantos e entretantos,
desvelam suas vidas em entreatos
meros hiatos que o Destino, tirano e trágico,
traga para um fundo silencioso
e opaco de mistério.


E para o cumprimento da tarefa hostil
que é, por vezes, viver,
restou a fé
– paz exclusiva aos de corações desarmados,
estranha e mágica energia de crer 
na força desses Invisíveis presentes.


Izak Dahora – 04/07.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Olho gordo

Danaram-se todas as sortes:
- Dei mal jeito no pé direito!

Não me valeram os búzios e os astros
mantras, mães-de-santo, cartomantes,
ou o horóscopo que lera pela manhã.

Fui à rua e dei uma topada naquela pedra de Drummond:
enquisilada, fundamental e mesma no meio do meu caminho.

E quiçá mais incômoda que a própria topada,
sua arte bruta de gerar perguntas, refinada,
fez-me indagar como, quando e por que.

Remover os sedimentos do enigma,
grão de mistério, monolito – a tarefa!
- O que me moveu, e interrompeu, hoje
foram trabalhos e mandingas de contrários!

Ou não
quem sabe antes conspiração de um ser-razão
a fazer-me repensar a vida no giro de um segundo
a fazer-me ser mais leve, enxergar a vida, simples.

uma pedra
e nada mais.



Izak Dahora

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A eliminação da seleção e uma modesta reflexão – o que, de repente, pode servir de aprendizado.




Por ser daqueles que partilham da opinião de que resultado de jogo não muito se deve discutir - este se impõem unindo competência e certa dose de sorte do vencedor – digo que não devemos lamentar a derrota da nossa seleção frente à Holanda na sexta-feira passada. E digo também que esta é a minha segunda e última crônica sobre a atual edição da Copa do Mundo. Caso eu me auto-desminta, encantado pelo espetáculo possível uma renovada e consistente  taticamente Alemanha ou de uma Espanha refinada no seu toque de bola e outros, por favor não me leve a mal, sou uma "metamorfose ambulante".

Mas não devemos lamentar a derrota até porque – e este até porque é que é o motivo desta crônica – nosso time sempre dera indícios de limitação técnica. Penso que o problema da Era Dunga foi ter-se valido e respaldado na máxima de que "em time que está ganhando não se mexe". E, talvez, não se mexa mesmo! Contudo, ficou mais do que provado que nem sempre resultado e números positivos são acompanhados de qualidade e persuasão. Pois nosso time em todas as eliminatórias – para não ir muito longe – em, exceto as partidas contra a grande rival Argentina, jamais fez o que se pode chamar de apresentação convincente do primeiro ao último minuto de partida.

Sempre aquela aplicação defensiva – que para mim disfarçava um imenso medo de perder -, aquele jogo amarrado que por vezes atingia o nível do violento avalizado pelo treinador (todos viram os seus rompantes na última partida junto aos de um grupo nervoso e de um certo volante expulso cravando as travas da chuteira no adversário). Enfim, um tipo de jogo brucutu que venceu Copa América e Copa das Confederações, mas a primeira, como seu nome já diz, é apenas um microcosmo de Copa, e a segunda não conta com todos os craques, que fazem charminho e são pressionados a servirem os clubes, os quais, aliás, pagam os seus salários e o leite das crianças. Por causa dessas vitórias jamais comparáveis a uma Copa do Mundo, o time do Dunga (dele mesmo, pois reflexo de uma visão fechada e não-consensual, como pede o cargo) ganhou a pecha de "competitivo". Bastou enfrentar a Holanda para vermos o nível de competitividade de uma equipe que durante as eliminatórias empatou três vezes em casa e por zero a zero, para times como o da Bolívia, que nem foi para o mundial.

Enfim, não acho que seja certo agora procurar culpados, até porque culpar alguém é muito feio e nada ético - como me ensinou uma vez minha mãezinha. Por isso acho que a falha de Júlio César (o melhor do mundo na posição golpeado pelo destinoso erro que um dia aparece para todos nós) e as botinadas de Felipe Melo e cia devem ser relevadas. Era o que tínhamos e eles deram o sangue. O que nos prejudicou mesmo foi, de fato, uma visão centralizadora e que radicalizou ao exagerar em "comprometimento" (termo-chave usado pelo já ex-treinador) a fim de não repetirmos o (outro) fracasso de 2006, quando houve imenso oba oba e desleixo de jogadores e comissão técnica em reuniões festivas demasiado animadas na concentração.

Dunga pode discordar de mim, mas creio que o que faltou foi aquela destreza de um Messi ou de um Romário de que já falei neste espaço (esta crônica dialoga francamente com a anterior). Schiller, filósofo fundamental do chamado Idealismo alemão (século XVIII) e do romantismo (século XIX), ao invocar a necessidade de uma capacidade criadora/criativa do homem que o individualize e liberte, ideal reforçado pelas consequências da Revolução Francesa, disse que "o homem só é homem quando brinca" (ou quando "joga", aí dependendo do rigor da tradução). E isso é genial porque demonstra que um grupo forte não precisa ser uma corpo militarizado, que faça tudo igual, muito obediente e austero. Ele faz-se também das individualidades, das irreverências, das "maluquices", dos desequilíbrios dos gênios criadores. Senão, torna-se tudo uma massa pasteurizada do mesmo. Este foi o problema, nosso comando não admitiu o diferente, o exatamente diverso de um modelo que o nosso treinador seguiu quando jogador. Dunga foi egoísta. (Embora a meu ver, certos jogadores descompromissados e acima do peso não merecessem mesmo ser convocados).

Perder todo mundo pode perder. Poderíamos ter saído nas mesmas quartas-de-final para o bom time dos "laranjas", mas nosso time foi burocrático e previsível desde a sua estreia contra a Coreia do Norte de quem, com todo respeito, conseguimos sofrer um gol. Confesso que nossas partidas me tiraram o ânimo de torcer e de ter aquele velho otimismo patriota.

O fracasso de nossa seleção serve de exemplo para as nossas vidas. "Esse cara pirou", você deve estar dizendo aí. Mas creio que serve de exemplo, sim. Não como forma de eternizar a figura de Dunga como um carrasco de nós mesmos, mas para que percebamos o jogo da bola (e o jogo da vida) como algo que pede ousadia, exposição ao erro e que ficar na defensiva não parece ser uma boa, para nada, aliás. Se se perder, fazer o quê? Contingência, porém façamos com prazer e risco. (Olha o "futebol-metáfora da vida" da outra crônica de novo!)

Talvez nosso fiasco na Copa da África - aliás, bom foi assistir a este continente dando provas da sua real capacidade de organização, quebrando preconceitos imutáveis, e espiritualmente embebida das forças do pacifismo de Mandela e de sua rica ancestralidade materializada nos decibéis da vuvuzela  - tenha servido para ganharmos essa consciência do riso, além da ciência de que nosso futebol têm decaído sensivelmente nos últimos anos, já não se trata mais de uma estrela solitária no firmamento e que este é mais um vexame a somar-se às copas de 98 e de 2006. Serve para ficar atento e não se iludir demais também! Dito isso, um jogo é apenas um jogo – um dia se vence e outro dia se perde. 

Voltemos às nossas rotinas! Ano eleitoral. E chega de feriado!




Izak Dahora

terça-feira, 29 de junho de 2010

Notas dos momentos antes de um jogo de Copa. // Bajulando uma paixão nacional.



Vesti-me de verde e amarelo (e também de azul e branco na consciência, as quais também colorem a bandeira pátria) e acorri pelas ruas para exibir o entusiasmo de ser brasileiro e o otimismo frente à partida de algumas horas depois. Não resisti, o corpo e os sentidos foram tomados pela vontade de torcer.
Era ainda manhã e fui trabalhar, mas já a caráter para torcer pelo "time do Dunga", que, não obstante algumas divergências conceituais futebolísticas, representa a paixão de uns 190 milhões de fanáticos e carentes como eu.
A segunda-feira, normalmente um dia ingrato e maldito, quem diria tornou-se marco de um patriotismo atípico aqui abaixo dos trópicos - num ano que é de eleição e as campanhas, aproveitando-se do ensurdecer provocado por cornetas e réplicas das vuvuzelas africanas, já começaram. Alô, alô, Ficha Limpa!!

No fim não poderia haver resultado melhor: Brasil 3 x Chile 0. Rumo às quartas-de-final.

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Penso que é o futebol o esporte que melhor assume a condição de metáfora da experiência humana. Dois exércitos encampados, onze para cada lado, correndo, lutando, suando e com a finalidade-mor de pôr entre as traves a bola, chegando ao "ponto g" do gol, um estado de prazer, ainda que momentâneo, e (por que não?) de felicidade eterna, pois quem não se lembra de um gol ou lance qualquer escondido nos arquivos da memória sempre a despertar o mais infante dos sorrisos?
Mais ou menos assim vivemos, tentando converter em apoteose nossos anseios e ambições no descampado da vida repleto de emoções absurdas e que dura bem mais do que noventa minutos.

Só que o futebol – e nisso assim como as demais modalidades do esporte, sob aquela nobre e pedagógica inspiração grega das olimpíadas – realiza essa luta de modo filosóficamente positivo e fisico-químicamente saudável, porque permite que cada integrante dos times dê vazão aos seus instintos naturais mais brutais e beligerantes, que caracterizam o homem, só que de modo lúdico, quando não simplesmente disciplinado, o que já é um ganho. (Garrincha, Pelé, Maradona, Zidane, Messi e outros são verdadeiros poetas pela destreza e refinamento com que trataram ou tratam a bola, ou então, para reforçar o aspecto de guerra benigna do esporte, autênticos cavaleiros andantes e de sonhos impossíveis, Dom Quixotes dos gramados). É certo que há determinados lutadores que extrapolam esse conceito – ou por maldade ou por deficiência – e acabam transformando em nada amistosas as partidas. Nem vale a pena mencioná-los.

Puxando a sardinha para a paixão futebolística digo que , dentre os esportes, só futebol – invenção da China medieval, concepção moderna da Inglaterra e patrimônio artístico 100% brasileiro – é o que mais se parece com a vida - assim como o meu querido teatro nos seus tablados - pela sorte de formas, emoções e improvisos que se dão nele. Por isso se parece tanto com a vida, pois pode ser belo e trágico ao mesmo tempo. O velho Nelson Rodrigues escreveu bastante sobre essa conjugação misteriosa, que para ele assumia feições emocionais tricolores.

Diferentemente, por exemplo, do vôlei, do tênis e até do basquete (este com uma ginga similar à do soccer), o futebol talvez seja o único em que o pequeno e inferior técnicamente pode derrotar o grande e superior. Não que isto não acontecã nos outros esportes, mas é mais difícil. O campo largo e as variáveis de esforço, tática, emoções e catimbas fazem a diferença.
O futebol, então, torna-se um palco do imponderável. Além de que no futebol não se pontua tanto. Por vezes, basta um time fazer o dito "gol feio" de uma cabeçada dividida a partir de um escanteio e, em seguida, fechar-se na marra e na retranca, parando sempre o jogo com faltas para segurar o resultado de um magro porém suado 1 x 0 ; ou acertar um inusitado e belo chute do meio de campo, aos 45 do segundo tempo, encobrindo o goleiro adiantado e fazer 3 x 2 , aquele placar típico de clássico e levar a partida.

Ah, o futebol!



Izak Dahora

sábado, 26 de junho de 2010

A crônica que eu quis escrever há um ano sobre o Rei do Pop e não escrevi.




Tudo acaba. Fim.

Andam dizendo por aí que Michael Jackson não morreu, assim como o foi com Elvis e alguns outros grandes do mundo pop. Para mim ele se foi, sim, como, aliás, todos nós reles mortais, seres perecíveis neste palco da vida, mas que tentamos ao menos – uns pela via do trabalho determinado, outros pelo da fama inócua - aqueles quinze minutinhos mágicos de atenção, por mais pés-no-chão e tímidos que possamos ser.

Mas para isso há que se ter talento, além de uma boa dose de sorte, claro, aquela estrela que brilha. E aquele garoto, mascote dos The Jackson Five, grupo soul surgido em meados dos anos 60, sempre teve. Era "som e fúria", como poderia dizer Falkner, cantando por exemplo Music and me, esbanjando domínio técnico-vocal e um carisma, um magnetismo permanente fora do comum frente ao público, o que segundo muitos, logo rendeu ciúmes e disputas entre os demais integrantes do conjunto, seus irmãos.

Michael – e na minha opinião o do início, especialmente, quando ainda gozava de saúde e vigor físico – entoava uma força estranha, apesar de pueril e frágil, a estremecer quem quer que fosse (independente de cor, credo ou classe social) e que, ironia da vida, era produzida nos guetos dos marginalizados e musicalíssimos negros de Gary, de Harlem... Me emociono sempre que ouço aquela massa vocal carregada de uma expressividade que não se aprende na escola. É muito forte! Apreciando I'll be there, uma nítida canção de amor, amplio seu sentido mais imediato e óbvio, e penso na sociedade americana ainda recém-saída do pós-guerra, nos seus embates por justiça e um maior equilíbrio entre as cores e as raças (lembro de Kennedy, de Luther King...). Mesmo sem ter vivido aquela época. E tudo isso a partir de um menininho cantando "Eu estarei lá". E ele chegou "lá".

Cumpriu-se o fruto de um trabalho máximo de amor à música e exploração que aniquilou sua infância, fazendo de si um adulto que não queria crescer e também o destino de um dos maiores fatos culturais da segunda metade do século XX, um fenômeno internacional.

Uma figura ambivalente, contraditória, como, aliás, a maioria dos grandes artistas. Mas talvez sem controle – e não exclusivamente por sua responsabilidade individual. Michael representava, no meu modo de ver, o que de melhor e de pior há no mundo das celebridades, dos pops, dos vips. Utilizou seu capital de prestígio artístico e financeiro para a filantropia; chegou nas massas com sua arte provocando alegria, unia as pessoas pela voz. Mas também tornou-se vítima e refém de uma fixação consumista – logo ele que era símbolo de uma indústria que nos tenta fazer consumir! ; protagonizou cenas bizarras (como fazer que ia lançar um dos filhos pela janela) e revelou nas suas máscaras e bolhas de oxigênio "prol eterna juventude" que ter dinheiro e fama e ser perseguido por todos não é tão saboroso assim. Até hoje é estranho para mim ver como a sua fisionomia foi sendo modificada (pela vaidade e pela necessidade, é verdade, sofreu queimaduras e problemas dermatológicos) tornando-se cada vez mais débil, de um semblante triste. Tais transformações somente possíveis através da mesma potência tecnológica que produz um grande astro internacional como ele. Foi um gênio fruto do seu tempo. E desafiadoramente paradoxal, como só o ser humano! Michael, a figura que foi adulto e foi criança, branco e negro, masculino e feminino, forte e frágil. Foi de uma ambivalência trágica. 
Um artista de sensibilidade artesanal, mas, ao que parece, que não pode ser  visto como um desvinculado da indústria. Ele tributário e devedor desta. Um artista pós-moderno, diga-se assim, com suas agruras e delícias. Que tal?!


Tudo acaba?

Concluo que não em se tratando de Michael. Sua obra fica pela imensa força com que chega inclusive nas novas gerações. E porque também, é verdade, está inserida numa sociedade que costuma "redescobrir" o valor dos vivos quando mortos. Michael Jackson depois de fazer um esforço hercúleo para realizar uma turnê, a que pretendia, provavelmente, encerrar – se é que é possível encerrar uma trajetória como a sua! - com a merecida dignidade, uma carreira combalida pelo desvio natural e gradativo dos holofotes e por escândalos (ainda muito mais da ordem dos mistérios não de todo desvendados) de ordem pessoal, de repente tem saída repentina no descortinar da morte. Que, segundo os números, têm sido alavanca no seu nome e no seu comprometido (?) patrimônio. É cruel, mas o sistema funciona exatamente assim. Por um lado é ótimo: sua arte tende a ser mais executada.

Pois o seu vigor sonoro, que releu as influências da música negra norte-americana (como reconheceu Michael em James Brown, por exemplo, e na Motown), que promoveu a renovação dos videociples nos anos 80, a transformação do artista num fenômeno audio-visual feérico (que cantava, dançava os "passos da lua" e ainda trazia consigo um singular estilo que incluía roupa brilhosa e luvas, um achado para produtos licenciados) etc, todas essas foram contribuições de Michael Jackson ao mundo pop. E sua existência ajudou definitivamente a moldar o universo do show-bizz, tal como o compreendemos consciente ou inconscientemente.
De modo que a mim não me parece nada estranho enxergá-lo numa mesma galeria que vai de Andy Warhol, Elvis, Madona...Essas figuras, essas marcas que souberam usar – e se permitiram usar! – pela máquina da indústria cultural.

E, ademais, dificílimamente alguém venderá outra vez, neste planeta, algo em torno de 750 milhões de álbuns (e amealhar 13 Gramy) em tempos de reprodução musical à solta pela internet. Até porque a era plena do disco parece estar nos seus últimos estertores e as gravadoras descabelam-se à busca de uma alternativa economicamente viável para si próprias. Haverá que se definir e criar outros níveis e outros parâmetros de aferição e de produção para um grande ícone pop. (Essa mudança está em curso). Suportes tecnológicos para isso não faltam. E, quem sabe, provavelmente, Artistas.

Mas Michael, mesmo com toda as novidades, deverá seguir rei. Porque majestade é posto.


Izak Dahora

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Musa-esfera africana

já rola a bola
já roda o planeta junto com a bola
giram os olhos acompanhando a dança da musa-esfera
e que corpo de mulher por ora mais envolvente que ela?

mais leve que os componentes naturais da atmosfera
mais veloz que o vento quente nas savanas
toma efeito antes mesmo do chute e é drible antecipado
-carrega, indolente e selvagem, o instinto de um continente-
que macho metido a goleiro domina a fêmea africana?

já rola a bola
no campo a luta, rolam arte,desejo, paixão
rola o objeto-móvel invenção e caro aos mercados e corações
                                                                              (de milhões)
rola a bola, já! buliçosa no ar
Jabulani



Izak Dahora

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago, sem firulas, sem lágrimas





Ontem comecei a reler “Ensaio sobre a lucidez”, livro cuja narrativa dá-se a partir de uma imprevisível chuva torrencial, em pleno dia de eleição, que torna supostamente impraticável o exercício do voto. É narrada a perplexidade que as “ruas desertas de chuva”, alagadas, inundadas, nesse tão aguardado dia cívico causam na sociedade e nas instituições – sobretudo na burocracia das classes política e eleitoral. Com esta narrativa de alcance universal e, portanto, parabólica, José Saramago desfia toda a sua capacidade crítica, uma vez mais, e não deixa dúvida de como observou com ironia e severidade a miséria humana e a mediocridade dos nossos sistemas políticos – dos dirigentes e dos votantes, nós.

Quis reler este livro pois percebi que, agora, em ano eleitoral no país, quando no Brasil ficamos todos (todos?) absortos pela Copa do Mundo e falamos mais no “controverso time do Dunga” do que em questões como reforma política, por exemplo. Não que futebol seja algo desprezível, longe disso, sou um apaixonado pela bola.

Mas quando li “Ensaio...” pela primeira vez – e antes deste já havia outro, o do Nobel, e que foi parar anos depois nas telonas - ficava imaginando como seria se um dia fizéssemos, tivéssemos a coragem de simplesmente não votarmos, ainda que impedidos pela intempérie de uma chuva como daquelas do mês de abril passado. Poderíamos demonstrar, assim,  na minha imaginação quase de criança, nossa insatisfação e forçar a existência de novas eleições, quem sabe, provocando alterações maiores na forma demagógica, simplista e estatística com que os políticos nos tratam. 
Achei na ocasião o livro de uma força incrível. Isto, sem adentrar no comentário mais pormenorizado de sua linguagem detalhada, crua e espantosa no sentido da humanidade contida em digressões e, ao mesmo tempo, de uma sintaxe objetiva  e outra, invertida, provavelmente oriunda da lógica "portuguesa com certeza". 
Narrativa escrita sem o recurso dos travessões ou aspas para destacar a vozes dos personagens, o que resulta para mim como vigor do próprio ato de narrar, pois tudo está contido no curso da narração em si, resgatando alguma coisa, possivelmente, da tradição oral das aldeias onde viveu Saramago.(Torna-se , então, desnecessário anunciar as vozes com mais gestos e sinais). Arrisco-me a apontar tal linguagem como reflexo da visão "sem firulas" de Saramago, que não fazia concessões às suas opiniões, mantendo-se, ao mesmo tempo, profunda, aguda e cirúrgica, só mesmo produzida por uma mente lão lógica e quase desumanamente coerente do escritor cético e ateu declarado. Um homem que perseguiu a árdua tarefa de ser lúcido.
Aos poucos, fui tomando conhecimento da postura contundente de Saramago enquanto pensador da sociedade contemporânea quanto ao capitalismo, neoliberalismo, globalização, sua preocupação com a pobreza e a cegueira dos pobres e dos ricos...
Até que no dia seguinte da retomada da releitura do Ensaio sobre a lucidez ou seja, hoje (18/06/10), recebi a notícia da morte de Saramago. Não fiquei arrasado, pois sabia de sua idade e de sua doença, mas é claro que fará falta a presença de uma voz que, mesmo ranzinza e radical certas vezes (com a política, com a língua, com a literatura) era uma voz sem medo. E há muito medo de se ter opinião neste mundo globalizado! Tentei ser cético – como ele seria – diante de sua morte, mas fui um tanto fraco, como é de todo humano, e acabei escrevendo essas palavras. Mas, que fique bem claro, uma forma, na verdade, de nos fazermos lembrar da importância da atividade reflexiva e crítica do indivíduo.

Enfim, querer alguma relação metafísica para eu ter buscado o livro de Saramago na véspera de sua morte – ainda mais em se tratando desse escritor, um cético convicto – seria forçoso. E ele não gostaria disso, como detestaria também, creio eu, quaisquer tipo de lágrimas sobre a inevitabilidade da sua morte e da nossa, que virá um dia.  Digamos que tenha sido coincidência eu ter voltado a sua literatura logo ontem. 
Ou, para afastar-me a frieza da "coincidência", posso ficar aqui com a visão de uma amiga minha que me disse que o mundo está conectado, que vivemos todos numa confluência energética (egrégora) a nos deixar de certo modo unidos. E isto é pura física, não havendo nada, portanto, de transcendente em sensibilizar-se com o que me ocorreu.

Achei interessante a explicação da minha amiga Bruna. Só acrescenteria que se a leitura e o pensamento são também compreendidos como formas de amizade, mais um motivo para estarmos ligados.




Izak Dahora

terça-feira, 15 de junho de 2010

Sonho de trova



Meu sonho é ver meu verso virar canção.
Não lê-lo; ouví-lo, quando neste dia
for surpreendido pela nova possibilidade
de algo que rompeu de mim e eu não percebia.
Quero ser um trovador
Quero ser o que já foi caminhando errante
sobre os caminhos de pedra da Idade Média
embriagado em noite alta.
E gozar de ver meu verso fazer soprar delírios
nos ouvidos da mulher amada.



Izak Dahora