domingo, 4 de janeiro de 2015

"Relatos Selvagens"




"Relatos selvagens" é um filme extraordinário!!! Trata da violência do ser humano em várias de suas formas através de seis histórias que causam um leque de sensações ao mesmo tempo, da repulsa ao riso mais desbragado. E faz rir porque expõe as violências possíveis do humano (supostamente racional, ético e moral ao absoluto) no ridículo ao qual é capaz de chegar, seja por paixão, frustração, corrupção, vingança, opressão do sistema... O filme reflete, critica e diverte. E faz algo que eu acho muito interessante: reinventa aquela velha têmpera latina (de intensidade, dor e sofrimento comuns nos melhores tangos), que a crítica do Cacá Diegues definiu muito bem ao chamar as histórias narradas no longa como "óperas trágicas cheias de humor", "neochanchada pós-moderna, culta e cruel". Palmas pro cinema argentino, mais uma vez!

sábado, 6 de dezembro de 2014

"Timão de Atenas"



     Vera Holtz, essa atriz excepcional faz em "Timon de Atenas" um trabalho fabuloso, dos mais vibrantes e completos que já vi! Que equilíbrio e força no arco dramático do personagem (do topo à queda) ! Que domínio e precisão nos momentos (muitas vezes simultâneos) de ironia e ira do personagem (que é um homem mas que na interpretação dessa atriz fica absolutamente crível). Que ousadia, que disponibilidade pra jogar e brincar! Isso é ator, isso é teatro!

     A encenação do Bruce Gomlevski, a partir da versão do National Theatre de Londres, é aguda, vigorosa, bem contextualizada culturalmente e crítica, trazendo à tona o que esse texto tem de perene e de tão pertinente ao nosso tempo: a reflexão sobre o poder nebuloso do dinheiro, as relações humanas momentâneas e escorregadias ao sabor da "cotação" de cada um no mercado e no jogo do poder (com seus privilégios) e a corrupção de valores, enquanto as manifestações populares sangram nas ruas... Mais de 400 anos depois nada mudou. 

     O cenário de Helio Eichbauer é arrojo e deslumbramento (como sempre!) num espetáculo com uma visualidade ao mesmo tempo contemporânea e sóbria (com o peso digno de um clássico shakespereano mas sem deixar de ser acessível e fluente e ágil, aliás isso acontece em todos os aspectos da encenação, a começar pela tradução). A trilha musical participa com ousadia, pontua, provoca e emociona. E que satisfação ver uma montagem com um elenco tão numeroso (26 atores) e competente! Tudo é bem dito por todos, tudo é claro, calibrado nas intenções, coeso e equilibrado em desempenhos de atores que têm inteligência, entendimento do texto e força em cena!! O resultado é um espelho eletrizante da alma humana como pede o bardo! 

sábado, 19 de julho de 2014

"Incêndios"




Tendemos a ver as tragédias quase sempre num lugar distante - nós, situados ou nesse aparente paraíso tropical chamado Brasil ou no tempo de suposta civilidade ocidental. Mas as tragédias estão aí e sob diferentes faces. Esse espetáculo, "Incêndios", uma pancada, me faz pensar sobre isso agora: nas nossas tragédias gregas contemporâneas (não considerando a dimensão sobrenatural do trágico mas as responsabilidades humanas). A guerra produz tragédias cotidianas, barbaridades que vão se banalizando, criando equívocos e coincidências assombrosos, esfacelando os estados de vínculo mais essenciais do humano - nas jihads do Oriente Médio ou nas guerrilhas urbanas daqui e de qualquer outro lugar. Há muito nada me impactava tanto em cena.

quarta-feira, 12 de março de 2014




Na pré-estreia do filme "Alemão", no Rio (10/03/2014).
Neste filme interpreto o personagem Pixixo, "correio" (ou mensageiro) do delegado Valadares (vivido por Antônio Fagundes) para informar a polícia sobre o andamento incursão pré-pacificação do complexo do Alemão. Direção de José Eduardo Belmonte.

Divulgo aqui o trailler do filme "Alemão", que estreia nesta quinta-feira (13 de março de 2014).


http://www.youtube.com/watch?v=pSUCc4Xp7ro

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Lacan em versos ou "arrancar poemas presos"

Ando lendo - muito - para minha pesquisa de mestrado. Evidente. Investigando nas últimas semanas as abordagens psicanalíticas para o corpo, achei muito impactante em Lacan, via J. -D. Nasio, mais precisamente quando o psicanalista francês apresenta o conceito "gozo" e seu intérprete, Nasio, desenvolve-o em 5 lições sobre a Teoria de Jacques Lacan

Gozo (essa energia fundamental cujo lugar é o corpo e que é responsável por nos conferir ânima - seja alegria, seja dor e sofrimento). Nasio relata o caso de uma paciente e nos fala do gozo como presente também nos tumores, do gozar do tumor. E esta imagem é tremendamente forte! Mas, em certo sentido, até trivial do ponto de vista científico, claro. Afinal, tumor é relevo, sinal (ou sintoma) de células que como nós possuem vida. Só que são vidas nocivas para os nossos órgãos e sistemas. Tumor como corpo gozoso que se infesta.

O fato é que daí lembrei de dois poemas da admirável filósofa e poeta Viviane Mosé que li há alguns anos em Pensamento chão - poemas em prosa e verso. Seus versos nos fazem estarrecidos diante de sua coragem de tratar com contundência opinativa tema tão espinhoso e doloroso, mas, em três poemas sequenciais, parece nos dar uma possibilidade, como todo ser poeta sensível.

A maioria das doenças que as pessoas têm
São poemas presos.
Abcessos, tumores, nódulos, pedras são palavras
Calcificadas,
Poemas sem vazão.

Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado.
Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema.
Mas não.

Pessoas às vezes adoecem da razão
De gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima


Lágrima é dor derretida.
Dor endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida.
Alegria endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida.
Raiva endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida.
Pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor,
Tempo derretido é poema.


Receita para arrancar poemas presos:
Você pode arrancar poemas presos com pinças,
Buchas vegetais, óleos medicinais,
Com as pontas dos dedos, com as unhas.
(...)

Mas não use bisturi quase nunca.
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas,
Endurecidos do corpo.
(...)

                    (Viviane Mosé)

P.S.: Esta postagem dedico à minha querida amiga que não vejo há muito tempo, Annabel Albernaz. Foi com ela, na época da graduação em Teatro, na Unirio, que aprendi a conhecer (ainda que de longe) o pensamento psicanalítico e lacaniano, no qual agora me aventuro com um pouco mais de profundidade, porém sem a erudição da minha amiga neste domínio. Annabel, um beijo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Livreiros!

O que seria das nossas vidas sem os livreiros? Nas livrarias que frequento sei o nome de cada um deles. Bons amigos que se tornam após tanto enchermos a sua paciência. Amizades que se criam em papos ao mesmo tempo informais e cultos sobre e próximo às páginas dos livros. 


14/03: DIA DO LIVREIRO! Ele também tem um dia para chamar de seu! Viva!


- Deus, livrái-los de todo mal. Amém!


P.S.: O meu abraço todo especial aos livreiros da Livraria da Travessa (da Sete de Setembro, Rio) que me aguentam: Leila, Marcos, Luiz Claudio... E a todos os da Travessa da Rua do Ouvidor, Rio Branco, Barra; da Leonardo da Vinci; dos sebos do Centro do Rio, com ênfase para os de arredores da Praça Tiradentes!  

P.S2.: Abaixo, a homenagem do escritor Xico Sá no blog da Folha de São Paulo a todos os livreiros.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A arte é para todos? Alguma reflexão sobre a condição política e social de arte e cultura no Brasil a partir de um jovem engraxate e sobre o gosto estético


Cruzando a Praça Floriano, Cinelândia, altura do bar Amarelinho, eu ía apressado, correndo em ritmo de dezembro e fugindo do sol que escaldava, rumo à já não sei mais qual compromisso. Uma voz do nada apregoou:
- Teatro para todos?
De súbito não entendi e, por isso, olhei para trás, mas sempre em marcha. Notei, então, que havia na extremidade oposta a mim e à voz, próxima ao meio-fio que beija a onipotente Avenida Rio Branco e onde encostam parte da numerosa frota de táxis e ônibus da frenética cidade, cabines improvisadas da já instituída campanha realizada pela Associação dos Produtores de Teatro do "Teatro para todos", que acontece normalmente no último mês do ano e vende ingressos das peças de praticamente todo o circuito teatral carioca a preços simbólicos (mais que simbólicos até) ou populares, podendo chegar a cinco reais, na intenção de revitalizar, aproximar e renovar o público de teatro.
Notei a voz talvez mais pela aparente falta de nexo da pergunta lançada no meio da praça do que pelo impacto físico causado pelo semi-grito, afinal de gritos vive uma metrópole, a "Babel contemporânea" ou a versão atualizada das feiras antigas e medievais em que abundavam mascates e figuras mercenárias tomando de assalto (às vezes literalmente) os passantes, com sedução na voz a revivendo a atemporalidade dos mitos das "Mil e uma noites". Mas a minha voz, digo a voz que me assaltou da correria que nos aflige a todos e nos faz correr sempre como que atrás de um grande prejuízo, além de denunciar uma atitude performática, erigiu-se no ar com requinte de ironia, e com os trejeitos do corpo - de genuína malemolência e malandragem carioca - resultava de legítima provocação, o que pude constatar quando olhei para trás, sempre marchando.
Em fração de segundos a "ficha caiu" pois num golpe de olhar pude, aí então, perceber a presença dos guichês com placas "teatro para todos". A voz do do rapaz de seus vinte e alguns anos fazia, inteligentemente, menção de olhar e de projetar a voz aos guichês da campanha.
Respondi-lhe:
- Sim, o teatro é para todos - com certa alegria na minha voz, pois como sou do teatro e acho a campanha uma politizada iniciativa da classe, senti-me estimulado a dizer, ante sua ironia, que "sim, o teatro é para todos", sempre marchando.
Mas o rapaz foi mais longe do que eu. Em tão poucos segundos do fortuito encontro ao longo da praça, pensei que ele fosse seguir na "brincadeira"  até o ponto que a manifestação de uma improvável consciência crítica sua se diluísse na previsibilidade do humor corriqueiro. Mas a micropausa que se seguiu à sua provocação me fez ver, ou melhor, rever, que o teatro, assim como a arte no Brasil ainda e de um modo geral, não é mesmo para todos, que o acesso aos bens simbólicos nesse país não é coisa que graceja em cada esquina.
De onde saíra aquele quase moleque com tamanha agudeza? Sua pergunta lançada ao ar no espaço da praça naquele típico tom de quem já pergunta sabendo a resposta negativa, cético, niilista, oriundo, provavelmente, de quem já deve, em não muitos anos de vida ter sentido na carne as desigualdades históricas da sociedade brasileira, agora reflito, agiram com uma argúcia praticamente socrática de investir na campanha (repito, importante da classe teatral para amenizar um problema cultural do país) um sentido de indagação e descrença sobre um panorama que transcende a própria temporada popular dos teatros nesse fim de ano. Em poucos segundos, era como se ele estivesse na espera de alguma resposta mais profunda que mostrasse a ele que sua provocação era infundada. E não era.
Por que teatro a preços acessíveis em no máximo quatro semanas do ano e não durante o ano inteiro? É  sabido que o teatro é uma arte, assim como várias outras, que geram muitos custos, mas por que o governo não subvenciona, então, parte desses gastos continuamente para que a maioria da população possa ter acesso à cultura sempre? Impossível? Inviável? Esteve aqui no Brasil há pouco tempo o Théâtre du Soleil que não nos deixa mentir, companhia tradicionalmente mantida pelo Estado francês, mesmo, hoje, em tempos de crise econômica devastando a Europa. E o Brasil surfando em relativa prosperidade e emergência econômica não poderia fazer o mesmo? Caímos em dois problemas de sempre, então, para nós: a corrupção seguida de impunidade, que assola o país de cima para baixo, do Congresso às feiras de ruas e praças, das Capitanias Hereditárias ao nepotismo praticado dentro do gerenciamento do bem comum, da rés-pública. Porque num país onde se devia tanta verba, onde se leva dinheiro público na cueca, onde se "lava" dinheiro, financiar parte do ingresso do teatro ou de qualquer outra manifestação cultural que, decididamente, participa da formação de cidadãos melhores, não seria nada oneroso. O que falta não é recurso, é amar o Brasil e sua gente, respeitá-los.
Nossa mentalidade política ainda não é capaz de enxergar arte e cultura como artigos de primeira necessidade na formação de nossa cidadania. Aliás,  é interessante a ignorância e falta de sonho das massas. E olha que o país evolui (na economia e na instituição da democracia, por exemplo) a olhos vistos. Mas ainda somos mesquinhos como sociedade.
Para além de uma campanha sazonal de preços populares - que devo aqui dizer de novo, não considero má, vejo-a abrindo horizonte para muitos, inclusive para que nós artistas sobrevivamos - e da própria subvenção estatal, chego a pensar que o cidadão precisa mesmo é ter condições mínimas geradas por um projeto de país minimamente decente de lhe assegurar acesso a bens fundamentais como, por exemplo, emprego, cujo salário tenha realmente poder de alcance para dar conta das necessidades  poder ir ao teatro com a família nos fins de semana tranquilamente. Por que não? "A gente não quer só comida", já disseram os Titãs em época de inflação galopante.
Eu sei que é mais fácil falar, ainda mais em tempos de crise internacional em que se avolumam os descontentamentos com a evolução neoliberal que excluiu e exclui tantos. Por isso, pode acreditar, tento sempre ver os dois lados de tudo e buscar a moderação.
E boa parte dessa reflexão passa pela minha cabeça enquanto cruzava depressa a Praça Floriano.
Sempre em marcha, ainda ouviria do rapaz, depois que eu, intrometido e defensor da causa da arte e do teatro, lhe disse "sim, o teatro é para todos" tentando incutir nele algo para além da própria campanha, que "Teatro é chato. Já fui. Gosto não".
                 O que levei no bom humor e repliquei:
- Não é não, rapá! Você que deve ter assistido à peça errada. Teatro é bom! - disse a última frase com toda a exclamação que podia saltar do meu peito. (Até porque, para não gostar ele precisa do acesso aos repertórios. Gosto se constrói).

                 E fui.
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Algum tempo depois, veio meu modo dialético, fiquei pensando: "Mas será que de repente ele já não foi mesmo ao teatro? E será que percebeu, nessa experiência,  que realmente que não gosta? Não será isso é um direito seu?". Afinal tenho amigos que não gostam, preferem cinema, por exemplo, gente culta, embasada. Embora eu ache teatro o máximo, conheço pessoas que curtem um cinema cabeça e não uma peça de teatro.
De repente, não será  seu canal de conexão criativa com o mundo uma outra forma de arte - música, grafite, sei lá? Ou mesmo um esporte? Ou qualquer outra atividade simbólica desempenhada honestamente? E aí, então, pergunto: será mesmo a arte para todos? Serão todos para a arte? Embora seja difícil existir alguém que não goste ao mínimo de música, muita gente não gosta teatro, assim como não gosta de cinema e por aí vai. E isto revela que antes até da questão social do acesso, há a afinidade, o gosto. (Mas, insisto, é sempre melhor não gostar depois de se poder apreciar).
Só escrevi este apêndice para deixar claro que, embora ame e defenda o teatro e saiba da sua elitização social que faz muitos dizerem que não gostam dele mais porque nunca o puderam apreciar de forma íntegra e ampla, respeito quem possa afirmar que não gosta.

Izak Dahora

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"Só pra contrariar"

Nos últimos três dias, ao ligar a tv tive a sorte de me deparar com momentos de arte, beleza e poesia. E, como se pode imaginar, contrariando o que acaba sendo regra, pois muitas vezes pasmamos diante do nada na tela, na prótese de vidro desta e em diálogos inócuos, em personagens e pessoas visivelmente ocas quando muito patiando num mar de clichês... e daí vou zapeando, zapeando, zapeando - zapeio muito, não sou nada fiel a nada. Se o programa não é interessante, se o papo mostra que não vai longe ou se vejo a falta de conteúdo escancarada constranger à pseudo-celebridade que não sabe do ridículo que faz ao se expor tão vazia e constranger a mim, que não desejo assistir ao espetáculo da calamidade alheia - causando em mim a vergonha que deveria, no mínimo, ser também do outro -, vou mudando logo de canal. Pra poupar a mim e aos pretensiosos!
E o pior é que, certas vezes, não há nada razoável à nossa já combalida humanidade nem na tv aberta e nem na fechada. 

Mas anteontem, num vespertino da tv por assinatura (o Estúdio i, Globo News), assisti à cantora Pitty lançar seu novo álbum, Agridoce, em parceira com o músico Martin, e interpretar uma canção belíssima, executada de maneira clara e simples, acompanhada por violão e tocando, ela própria, uma espécie de xilofone - o qual trazia delicadeza ímpar. O que me tocou mesmo, especialmente, foram os versos finais, construindo bela imagem, poética e calcada numa oposição tomada do lirismo de uma voz que passa a canção (Dançando) na ânsia pela graça, beleza e amor: 

"O mundo acaba hoje e eu estarei dançando
O mundo acaba hoje e eu estarei dançando com você"

http://www.youtube.com/watch?v=wgGUyIcgutg (Vale ouvir toda a canção!)

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Já hoje, passando pela sala, tv ligada, novela das sete horas, algo que já devo ter ouvido em algum lugar:

"Amor sem dor não existe; já dor sem amor, sim, e é masoquismo..." 

Achei interessante e delicada a maneira como se construiu a cena em que o pai consolava a filha adolescente nas descobertas amorosas da última e nos paradoxos desse sentimento fundamental, recorrendo a uma citação, provavelmente já muito repetida, mas curiosamente bem inserida no diálogo.
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Por fim, ligo a tv num programa de entrevistas (3 a 1, Rede Brasil) - gênero televisivo que adoro - e saboreio uma discussão filosófica em torno de vida, religião, morte e arte, a partir do entrevistado, o escritor Rubem Alves, terminar com as seguintes palavras do mesmo, quando este respondeu à derradeira pergunta (sobre qual o seu tema predileto de escrita): 

"Ostra feliz não faz pérola (...) Eu escrevo para parar de sofrer".

Grande confissão e voto de amor ao ofício! No que me reconheci plenamente. Fazemos arte para nos livrarmos do que nos inquieta, incomoda ou nos faz saltar de fúria ou de alegria - mas parece claro que uma grande cultura, uma grande literatura, enfim, faz-se mesmo é de um grande conflito. Os grandes como Dostoiévski, Kafka e alguns outros citados durante a entrevista estão aí para não nos fazer mentir.


Às vezes (e continuamente, por que não?) a tv pode nos surpreender verdadeiramente. Por isso acredito nesse veículo, na sua capacidade de não oferecer o que é mais fácil e o que grande parte das pessoas querem ver e ouvir - principalmente quando é feito hoje em momentos aparentemente despretensiosos e alternativos, com inteligência e criatividade, em relação ao espetáculo pelo espetáculo, à autopromoção de pessoas despreparadas na mídia querendo aparecer a qualquer custo, ao botox (em uso desenfreado) que parece estar transmutando a raça humana (vide atores, atrizes e apresentadores), enfim...


Izak Dahora