domingo, 21 de novembro de 2010

Elis Regina - Querelas do Brasil

Muito obrigadA.

Sempre me pareceu estranho o fato de a maior parte das mulheres, ao agradecerem, dizerem "muito obrigado", com "o" no final. Isso porque a nossa língua portuguesa, contestada por ser considerada machista  no entender de muitos - lembro até de um professor de português da época do ensino médio, Jorge, que sempre lembrava a mão dos machos nos ditames do idioma - apresentar uma forma de agradecimento no gênero feminino.

A mesma língua que nos dicionários apresenta em seus verbetes os vocábulos sempre no masculino, tendo este como referencial, proporciona às mulheres a possibilidade de agradecer de maneira única. Pois , então, não caberia nem cabe bem para mim, por exemplo, retribuir com um "muito obrigada" qualquer demonstração ou ato de generosidade ou favor.


Por isso, sem querer aqui ser bastião da língua, que ouçamos mais as mulheres fazerem a sua parte ao agradeerem, numa espécie assim de quase feminismo  estendido ao campo da língua- mas não tão radical, por favor! -, elas tão úncas e caras a nós homens, e que merecem sua distinção.


Izak Dahora   

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Agradeço aqui pela presença de mais seguidores acompanhando alguns dos frutos inquietos da minha ávida imaginação de filho único, artista, romântico, intenso cara que sou - ou tento ser, "A gente é o que sonha", já disse alguma vez um poeta. Comentem, critiquem (elegantemente, claro!), sigam (se for o caso), divulguem (se eu for merecedor!). Abraços carinhosos do Izak Dahora.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Napolitanos


Quando eu era criança não concebia a possibilidade de se gostar de sorvetes napolitanos. Considerava, na minha maquinação inconsciente que agora reconheço, falta de personalidade dedicar-se degustivamente, dentro de uma só vez, a três sabores diferentes - e, naquele meu ver, sabores tão incompatíveis.

Aliás, terá sido mesmo ao sul do país da bota onde surgiu essa heresia tri-sabor?

O sabor baunilha, que no meu limitado repertório de então só podia ser côco, era para mim sem graça, tão apático quanto a sua cor. A seu lado o chocolate, bem o chocolate eu fazia questão de não não gostar porque em toda minha infância eu fui alérgico a certos tipos de alimentos, especialmente os carregados da gordura característica do cacau. Nem preciso dizer que meus pais descobriram a tal alergia por conta do que resultou de mim após uma ingestão irrefreada do material mais ofertado em época de Páscoa na casa de toda vó generosa: comecei a criar caroços por todo o corpo e, além de parecer um E.T., parecia que ia explodir. Tive que aprender a não gostar.

Já o morango, minha fruta predileta da infância, mais até do que in natura e sim recheada nos biscoitos e nas guloseimas envenenadas de aromas e cores artificiais, me fazia revoltado diante já das embalagens dos napolitanos. Não admitia que minha fruta tão dileta dividisse espaço com outras, para mim nem mesmo dignas de papel coadjuvante, e de reles categoria.

E agora, divagando um pouco, penso que jamais poderia torcer para time de escudo tricolor, por exemplo. Minha aversão está originalmente ligada ao meu trauma com aquele sabor de sorvete. Que não era sabor, era sabores. Sorvete mau-caráter, duas caras, digo melhor: três caras! Lembro de quando rompi com a família e me tornei rubro-negro. Deve talvez até tratar-se de alguma predisposição genética (darwinismo) ou de alguma pulsão incosciente (Freud explica!) esse meu par de opção-aversão que começou nos sorvetes e alastrou-se vida afora.

É isso!! Eureca!!! Você pode até não não compreender – mas é como se eu estivesse fazendo uma descoberta terapêutica. Descobri a raiz do meu trauma/repulsa em relação aos objetos tripartidos!!!! Catapultaaaaa!!!! Será que me darei bem com a tecnologia 3D?? Ai meu Deus!!!!

Enfim, é curioso e engraçado, jamais quis ver aquele creme rósea com pedaços da cítrica fruta causando água na boca sem ser em carreira solo. E, no entanto hoje, sou um quase chocólatra como toda pessoa normal e admito um sorvete de côco vez ou outra. Mas os três juntos, nem pensar! Neuras à parte, em época de campanha eleitoral marcada pela hipocrisia e sistema político-partidário de cultural infidelidade, continuo, pelo menos, coerente e fiel aos princípios ideológicos das minhas papilas gustativas. Por isso: "Nada de promiscuidades na hora do sorvete!" ; "Viva o purismo moranguista!" ; "Dia 24 vote no rosa dos morangos"... E por aí eu poderia seguir na minha alucinação anti-napolitana...

P.S.: E pensar que adentrei numa quase teoria sobre tema tão esdrúxulo por conta da leitura que ando fazendo sobre texto do semiólogo e crítico francês Roland Barthes, em que é mencionado o clima de tensão entre as bandeiras ideológicas (preta, vemelha e tricololor) da crise por que passou Paris durante o maio de 68.


(Izak Dahora)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Projeto de prolixo.

                        à tirania do verbo, do verso e da linguagem

eu quero falar cada vez menos.
eu quero falar mais com menos.
quero falar menos para ouvir os falantes de outras falanges
e satisfazer meu interlocutor de entendimento.
quero dizer tudo com aparentemente nada
eu quero falar menos difícil e ser claro como a água.
eu quero meu monólogo de um modo mais diálogo
menos bife e mais grãos. menos texto mais contexto.
Eu quero eu menos só
                                  lilóquio.


(Izak Dahora)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Quase. Ou presente imperfeito.

estado de juntas querendo estalar
qual sensação prévia em ver vaso caindo
qual torção da mão sobre o caule da planta partindo

mas não estala
não cai
e nem chega a partir

aflição.

Auto-definição do artista.

E tendo que escrever um trabalho para uma disciplina da faculdade sobre "Por que sou artista?" - o tema mais complexo de escrever que já encarei, pois sou artista porque simplesmente não sei ser de outro modo -, me deparo no jornal (O Globo) de algumas semanas atrás com esta frase-definição de Geraldinho Carneiro, contemporâneo e querido poeta, quanto a si próprio como escritor:

"Sou um velho biscateiro intelectual, vivo rodando bolsinha no calçadão da cultura brasileira. Mas não faço qualquer biscate, não. Sou aquela vadia de bom gosto, metida a besta".

Bem que traduz o turbilhão de facetas que a gente que é artista desdobra para poder viver desse delírio que é a arte e encher nossa barriga. Ele ainda disse na entrevista a Arnaldo Bloch, que como Shakespeare, só escreve por encomenda, para vencer o tédio da repetição - "Shakespeare mesmo, por exemplo, só fez um poema de moto próprio".

Não é o máximo?!


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Europa de bicicleta.

Semana passada assisti no canal da tv a cabo TCM a Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica, filme de 1948. A programação desse canal, aliás, é saboroso cardápio para quem é aficcionado pelos clássicos do cinema. Lá assiste-se aos grandes musicais da Metro, westerns, policiais, dramas, comédias, atores emblemáticos ainda jovens ou que já se foram. Dia desses assisti ao violento e perturbador Taxi Driver, do sempre polêmico Scorsese e com Robert de Niro; noutro, o emblemático Nasce uma estrela, com a eterna ingenuidade, delicadeza e simpatia de Judy Garland.

                                                                         

Mas logo nas sequências iniciais de Ladrões de bicicleta pude constatar a verdadeira fixação que o cinema europeu, sobretudo a filmografia italiana, tem por bicicletas. E por crianças, já que uma coisa puxa a outra. A primeira imagem filmíca na minha mente a dialogar com o filme em questão nem foi tão remota. A vida é bela, com Roberto Benini. Mas logo vieram também Cinema Paradiso e, provavelmente, alguns outros (vários) de Felini que devem ter lá as suas bicicletas ou os seus triciclos em circos, sem falar nos outros muitos "filmes de bicicleta" que abundam nas películas do país cujo formato é uma bota.

Em comum nesses filmes? A ingenuidade, a esperança, a poesia e, por vezes, como em Ladri di biciclette a melancolia e a chaga social que sobe e desce as ruas de pedra da cidade de Roma, cenário clássico com sua arquitetura histórica e atraente (na sua monumentalidade e na sua ruína). No caso deste filme, mais de ruína (social) cuja imagem e cuja estética do neo-realismo italiano, inspirou o mundo cinéfilo da época (no Brasil "fazendo a cabeça" de gente como Glauber e Nelson Pereira), com a proposta de um cinema que abordasse tema e personagens possíveis do cotidiano, do povo, com suas histórias cruas, duras, captadas em cenas de grandes externas, planos gerais, câmera na mão, farta figuração, bem como é movimentada a nossa vida urbana e prosaica.
Nesse filme de De Sica as grandes tomadas características da estética neo-realista são, conforme o seu conceito já rapidamente descrito, equilibradas a uma lente que enquadra em relação com o espaço da cidade, o homem, seu traço de simplicidade e sua vida de gente possível, seu sofrimento.
Trata-se da história de um homem pobre, Ricci, (vivido por Lamberto Maggiorani), desempregado, chefe de família, com mulher e filho, que consegue trabalho como colador de cartaz. Para chegar ao local de serviço e se locomover nos seus afazeres utiliza a bicicleta que, com muito sacrifício, consegue comprar. Todavia, reforçando o dito popular de que "alegria de pobre dura pouco", Ricci, ainda logo no início do novo trabalho, tem sua biciclette roubada enquanto cola os cartazes. Daí, de uma perda aparentemente banal e até jocosa, inicia-se uma busca repleta de pequenas aventuras, equívocos e emoções, rumo àquilo que representa o instrumento do sustento do personaem principal e sua família.

Porém, detalhe: o filme acompanha a história de um homem mas se revela exemplar da história de um espectro bem maior de homens (operários), no seu desamparo pessoal e social, na sua desmoralização progressiva frente à inexistência de recursos e nem escolhas senão a revolta seguida da infração da lei - paroxismo esse da desigualdade social.

Essa história se repete até os dias atuais, está nas ruas para quem quiser ver. Outra curiosidade, pelo menos para mim, é o título do filme que tem o substantivo ladrão no plural (ladri) e reforça o caráter coletivo da dimensão social trágica que se repete na vida de muitos mlihares de homens – milhões, na verdade. Quantos trabalhadores já não se desesperaram a ponto de ceder à tentação de tirar o que é do outro para repor algo que lhe tiraram e o Estado, com seus organismos como a polícia, não se preocupou em resgatar? Isso sem falar em Estados (e o brasileiro é especialista ) que não proveem o cidadão de elementos básicos (educação, segurança, emprego...) cuja carência facilitam igualmente para o mundo do crime e dos "poderes paralelos".

Mas bicicletas por bicicletas, justiça seja feita, a diferença da de De Sica é que, no caso desse seu clássico, o veículo tem importância central. É o "objeto de desejo" dos personagens porque agente da sua sobrevivência.

Há que registrar também, no minha recepção de espectador, a presença do menino Enzo Staiola – esse é o nome do pequeno ator que nos comove com seus olhos grandes claros de criança e que, junto ao pai sentado nas calçadas, muito lembra o Garoto de Chaplin. O menino Enzo emociona como a criança que precocemente já sente a dureza do mundo. O ar de pobres vagabundos dos personagens, aliás, sugere uma singela e inequívoca homenagem do diretor ao grande gênio do cinema Chares Chaplin.

Talvez os filmes seguintes do movimento neorealista não façam da trilha sonora uso tão apelativo ao pólo emocional do espectador como em Ladrões... , mas é possível emocionar-se sinceramente, sem isso ser fruto de chantagismos do diretor. O filme também faz refletir.
Outro traço marcante do filme é o espaço entusiasticamente concedido pelos grandes cineatas italianos aos artistas simples, mambembes, da praça e da graça. O amigo a quem Ricci vai pedir ajuda para encontrar a bicicleta ainda no começo do filme faz parte de uma trupe que ensaia um  novo número. O ator que ensaia e é, ao que parece, dirigido por esse "amigo" é um verdadeiro gaiato entre duas simpáticas mulheres e que diz sempre a mesma palavra, em diferentes entonações mas com a mesma forma antinatural e galhofeira: Gente! , que em italiano quer dizer povo.

De Sica, Felini e outros seus conterrâneos renovaram a linguagem do cinema mas preservando certas tradições e um riquíssimo caldo de cultura produzido no seio italiano: a Commedia dell'arte com seus Arlechinos, Brighelas, Pulcinellas, seus cômicos eternos do cinema como Totó, enfim, muita coisa, muita gente.
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 Talvez essa presença e essa magia das bicicletas já seja uma consciência ecológica maior (pelo menos em relação a nós sul-americanos) por parte do Velho Mundo.
É realmente engraçado, aqui no Brasil não existe a cultura de trafegar de bicicleta. Todos querem automóveis! Andar de bicicleta: um hábito local (europeu), simples, charmoso, poético e saudável que se eterniza na tela do cinema.

 
Izak Dahora


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Brasil: "Casa grande e senzala" e "Conhece-te a ti mesmo" ou "Torna-te aquilo que és".


Ainda não li Casa Grande e Senzala, livro fundamental na busca de uma compreensão mais próxima da formação da sociedade brasileira. Tenho verdadeiro fascínio pelo tema, mas, com todo respeito a Gilberto Freire, seu autor, seu marco sociológico terá de esperar mais um bocado pois que são muitos os títulos na fila. Já ando até me atrapalhando em ler mais de um livro ao mesmo tempo para conter a ansiedade!

Pois bem, a edição da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP) deste ano "homenageou" Freire e algo que causou bastante frisson e até certo desconforto foi o fato de a obra referência na dissecação histórica da sociedade brasileira ter sofrido críticas declaradas e contundentes.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sociólogo como Gilberto Freire e autor do prefácio da última edição do livro marco, faz mais restrições que elogios à obra. Critica a ideia tão propagada pelo livro de democracia racial no país que, em sua visão, trata de maneira romanceada a escravidão e a discriminação no Brasil.

Não li o livro, mas digo que, neste aspecto geralmente sabido da obra, concordo.

Não sou próximo das convicçõe ideológicas de Fernando Henrique nem sou seu partidário – sempre estive longe disso -, mas acho saudável intelectualmente a revisão crítica da obra, aliás contrapartida teórica esta que surge de forma mais encorpada já nos anos 50/60, com inspiração marxista e destaque para Florestan Fernandes e os demais intelectuais da Usp, como o próprio Fernando Henrique.

Um título, como Casa Grande e Senzala, é passível de incongruêcias e equívocos como qualquer outro e a análise (e intervenção) periódica e fundamentada sobre o mesmo não o faz menor. Até porque, se somos uma sociedade, estamos em contínua dinâmica que nos permite mudar e, eventualmente, vermos melhor o que antepassados nossos não puderam ver.

Já o escritor e jornalista Luciano Trigo em seu blog Máquina de escrever, do G1, em texto do último dia 4, assimila as críticas de FH, mas procura evocar o lado positivo que há na obra de Freire, retirando-a de um certo radicalismo crítico do ex-presidente na FLIP.
É preciso mesmo ponderar com sensatez o contexto acadêmicamente incipiente (que o próprio FHC chama de ainda pouco objetivo cientificamente dos anos 30 do país no qual Freire esteve). E, ainda assim, o sociólogo pernambucano conseguiu realizar, palavras de Luciano, "uma interpretação pioneira, criativa", elucidativa de questões diversas do Brasil e do brasileiro resultantes dessa condição mestiça da nossa sociedade e que se torna expressão, código cultural singular nosso, apesar da discriminação e do preconceito históricamente conhecido.
Luciano também parece fazer justiça, na minha opinião, ao equilibrar a odiscussão só apimentada por FHC, percebendo Casa Grande e Senzala como mais ambiciosa e abrangente do que apenas o tópico da "democracia racial" que o autor pernambucano enaltece. Há no livro registro de costumes, culinária, comportamento etc que nos disseca. Porém, em mais outra dose de equilíbrio, Luciano afirma que é preciso estar atento à obra de Freire, que apresenta traços conservadores (como a já discorrida negação do racismo na construção social do Brasil), e o apoio do cidadão Freire ao regime militar instaurado em 1964 e a sua aproximação apoteótica com o salazarismo, correspondente ditatorial militar em Portugal, com direito a elogios e homenagens mútuas.

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Minha motivação para este texto surgiu a partir da crônica de Caetano Veloso que tratava exatamente de sua discordância de certas máximas que se tornam "verdadeiras". Como crer em democracia racial no Brasil e em democracia social plena nos EUA. Os americanos são mais avançados na dinâmica democrática, no meu entender, são capazes de eleger um Bush mas depois um Obama, sem problemas. Contudo, se um em cada cem jovens negros é preso, ao passo que a proporção para jovens brancos é de um em cada cem, isto sem adentrar na política tradicional aos imigrantes, de hostilidade, nem tudo são flores por lá.

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Percebo, cá, bem particularmente, sem querer fazer a cabeça de ninguém, que o brasileiro em geral ainda se projeta branco, rico e estrangeiro. Nosso Estado, entre outras medidas históricas, por exemplo, financiou a imigração (com isenções, moradia etc) ocultando sob tal atitude a inadmissão de ver o índio e o negro dentro de uma nova dinâmica social industrial de mobilidade e ascenção, já no século XIX. Investiu-se num "embranquecimento da raça", como dizia o Professor Darcy Ribeiro, e ambos (índio e negro) continuaram sendo vistos, em forma de ranço cultural, como subalternos (morais, intelectuais e religiosos, sem falar na divisão do trabalho e da geografia).
Contudo é importante dizer, antes que me venham tachar de xenófobo, que essa adição estrangeira, na minha opinião, nos caracteriza como civilização tropical mestiça, nosso dna sincero e rico, praticamente único no planeta, e a conquistar por essa mesma mescla posição política e cultural de destaque na geopolítica internacional como já ocorre – e como, antes, já profetizava o saudoso Professor Darcy.

O problema do Brasil é a não aceitação disso, dessa mistura, que é a não aceitação de nós mesmos. Até nas declarações para os sensos, eu percebia a dificuldade que muitos tinham em se auto-declararem de ascendência indígena ou afro. A quantidade de pardos nas pesquisas diante de tanta gente preta bonita nas artérias pulsantes desse país, como Avenida Rio Branco, Paulista etc, soava em mim como o grito de uma realidade que ainda precisamos superar com tempo, informação e amor próprio.

O resultado que vejo dessa trinca desejante (branco, rico, estrangeiro) é, inclusive, a corrupção. O brasileiro é trabalhador e solidário, criativo com, na maior parte das vezes, tão pouco, sem dúvida alguma, mas há um sentimento de jeitinho e impunidade que percorre nossas veias em todas as escalas, de cima para baixo. Aliás, em toda a América Latina. Parece que o brasileiro médio já constatou em que nível de baixaria nossa sociedade foi formada desde tempos cabralinos e então, fatigado de tanto escândalo de Brasília e arredores, dos "homens brancos e de colarinho a la europeia exploradora", acha que deve fazer o mesmo, em outras proporções, é claro. Haja país pra tanto jeitinho!
O resultado é ainda gente votando em determinado candidato em troca da dentuadura para a mãe ou interessado naquele "bendito" cargo de confiança na prefeitura ou no estado, dispensando o processo digno mas "chato" dos concursos. Aliás, quantos concursos fraudados nesse país! Agora tornou-se moda descobrí-los.

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Repito: ainda não li Casa Grande e Senzala. Vou ler. Pertenço a uma geração que convive num tempo de Brasil em que certas máximas (como a do mito da democracia racial contida na obra de Freire) vêm caindo por terra e a partir de críticas que se me apresentam com algum sentido. (A discriminação hoje é até bem mais da ordem da hipocrisia social, a meu ver).

Logo, dentro em pouco, pararei para apreciar mais pormenorizadamente a obra, apreciar seus méritos da observação de nós mesmos e seus possíveis equívocos.



Izak Dahora