sábado, 3 de janeiro de 2009

Ano Novo drummondiano!!

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo
Ano Novocor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novoaté no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?passa telegrama?).
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditarque por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mude
me seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começandopelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano novoque mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Elisabeth Bishop

Uma arte

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Joaquim Maria...



Cem anos sem Machado. Nada de melancolia ou sentimentalismos forjados. Machado não gostaria de nada disso. Apreciaria, antes, a leitura contumaz de seus livros e a perpetuação do seu olhar crítico sobre o mundo. Assim, penso, é reviver o escritor, que, autodidata, e do alto do Morro do Livramento, desceu rumo a Academia, a qual ele próprio iria fundar. Cem anos sem Machado são cem anos com Machado - e com todas as personagens emblemáticas que fazem, hoje e sempre, parte da mais alta estirpe da nossa literatura.

A prosa elegante, perceptível na economia e na objetividade do estilo (genéricamente realista), trabalhada sem deixar de exigir minúcia e profundidade, a ironia fina, o olhar arguto e mordaz acerca da natureza humana. E o tratamento mais que especial - sem perder de vista o tom crítico, claro, sempre - daquela cidade do Rio de Janeiro século-dezenovista da Rua do Ouvidor, do Passeio Público, de Botafogo, de Laranjeiras, da Gamboa, enfim... Machado, que também era Quincas, como um de seus mais célebres personagens . Joaquim Maria Machado de Assis, imortal pelo que criou e pelo que deixou como legado.

Escrevo este texto com ânsia de ainda lê-lo mais.

domingo, 28 de setembro de 2008



"Eu sou um anão, se enxerguei mais longe foi porque subi no ombro de um gigante"


Isaac Newton - meu xará!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Me coloco permanente no lugar da crise
Porque só dela é que posso sair algo novo.
Por isso acho sempre que não acho
Para ver se me acho
Aonde saberei que não sabia.
Filosofia.
É me achando vazio que
intuitivamente, mais que em movimento, ajo
e já, tão logo, de repente,
me descubro de algo novo preenchido.


Izak Dahora
Sim, continuarei escrevendo.
Continuarei escrevendo versos para você, minha cara.
E não haverá entre nós de ser o tempo na sua divers(idade) clara
A tornar menos críveis nosso sentimento, nossos encontros.

Farei como este todos os poemas lembrarem de ti,
Buscarei palavras, sondarei enigmas
Que te possam justamente definir.
Embora tão ampla seja de si mesma você.


Izak Dahora

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Queria encontrar o mundo
Eu ignaro talvez até de mim, do meu próprio eu desnudo
Como um corpo sem sentido nem conteúdo.

E foi então que o mundo me achou, e descobriu-me
e me abraçou com violência
-toda a violência do mundo!

Tanta que não tive força para dele me desgarrar.
Meu corpo calou no abraço mudo,
Faltou a voz e o meu peito gritava surdo.

Tanto quis
E tive como resposta a chaga, a miséria, a ignorância.

Queria descobrir o mundo
Só que agora, um tanto ou quanto mais maduro,
Percebo que o que descobri, na verdade,
De Tudo,
É que fantasiava eu tudo.
E que o mundo, docemente atroz,
Me estava sendo sincero
Mais do que eu próprio.
Eu, cego que estava de no meu mundo crer.

E por instantes com o Mundo, todo em meus braços,
Impelido por cena e símbolo ao sentimento maternal da Virgem
[tal qual na Sagrada Escritura]
Quis enxergar o mundo com dó e idealização
Quando o que tinha, na verdade,
e mais do que tudo,
era a verdade crua do mundo.