terça-feira, 22 de setembro de 2015

Minhas memórias do Manga


Eu estava ansioso no dia em que iria conhecer o Manga. Devia ter uns dezoito anos, era meu sexto e último ano de "Sítio" e eu sabia da sua grandeza. Afinal, assisti do final da infância à adolescencia praticamente todos as "chanchadas" da Atlântida, muitas das mais bem-sucedidas delas dirigidas por Manga e estreladas por Oscarito e Grande Otelo. Na verdade, "chanchada" era uma forma pejorativa encontrada pela critica para rotular filmes despretensiosos esteticamente, de humor ligeiro e popular, e que muitas vezes serviam mesmo de base para lançamentos de músicas que seriam sensação no periodo carnavalesco. Havia uma forte influência do teatro de revista (gênero teatral popular) de bastante apelo musical.
As chanchadas eram tudo isso e divertiam por serem exatamente isso: um bom pedaço do modo de ser brasileiro mais simples e irreverente. Como sempre fui um ser curioso e que, por isso, aprendi a flertar com o passado, desbravava com encanto, através do Canal Brasil, os filmes não só da Atlântida bem como da Cinédia, da Herbert Richers e tambem da Vera Cruz (a mais seria de todas do inicio do nosso cinema, de produções épicas emuladas por Hollywood. Manga viria justamente para modernizar a chanchada, levando maior rigor técnico (inspirado no cinema americano) às produções daquele cinema ligeiro e popular. "Matar ou correr" e "O homem do Sputnik" são dois grandes exemplos disso, indo da paródia ao cinema americano (com o primeiro) ao argumento mais politizado (com o segundo), sem perder o humor calcado no carisma de Oscarito. Ambos os filmes são dos meus preferidos de todas as "chanchadas", junto a "Os dois Ladroes" e "Nem Sansão nem Dalila".
Minhas memórias do Manga iniciam-se, portanto, antes mesmo de conhece-lo pessoalmente.
Pois muito bem, era chegado o dia de conhecer o "Manga", figura mítica do nosso cinema, as pernas estavam bambas, e eu queria que ele soubesse de todo esse meu fascinio por aquela epoca e pelos filmes que dirigiu.
Foi quando entrou na sala do Projac, acompanhado de Federico Bonani, querido diretor de sua equipe que o apresentou para mim. Meus olhos brilharam; falei logo que era fã dos seus filmes estrelados pelo Oscarito, sabia que o comediante era uma figura importante na trajetória dele. Manga, emotivo e de frases de efeito, como sempre foi, apertou minha mao e arrematou:
- Oscarito era um gênio. O maior ator do mundo! - fiquei radiante; concordo com ele!


Dali, o trabalho seguiu, com núcleo do Manga e direção geral de outro querido, Ulysses Cruz. O "Sítio" estava sendo reestruturado pela emissora. Eram já quatro anos no ar e o programa ganhava uma nova direção de peso para reavivá-lo. Tim Rescala assumia a direção musical e a figurinista Luciana Buarque relia as roupas dos personagens sob uma leitura mais rural, mais simples.
Lembro de receber um elogio do Manga ao meu Saci, acho que numa festa organizada pela produção: "O seu olhão está bom, hein! Continua, continua!"
O programa ainda ganharia prêmio e eu veria o Manga todo bem vestido, como sempre em ocasiões especiais, na Casa Julieta de Serpa, no Flamengo, orgulhoso da láurea à obra de Monterio Lobato.
Quando a temporada e aqueles seis anos de "Sítio" chegaram ao fim, a necessidade de seguir trabalhando e a incerteza quanto ao que viria profissionalmente, me fizeram criar coragem e chegar a Manga e Ulysses para dizer: "Soube que irão fazer uma novela. Me levem! Preciso trabalhar!" Eu estava chegando aos dezoito, dezenove anos, e naquela altura, depois de muitos anos empregado e com uma idade, em que a maioria das pessoas começam efetivamente a trabalhar, eu não queria nem podia ficar parado.

A produção seguinte do Manga era a novela era "Eterna Magia" (2007), primeira obra solo da Elizabeth Jhin, trabalho que enfrentou rejeição do público ao tema da cultura celta e das valentinas. Ulysses queria que eu fizesse um padre, que teria uma historia de preconceito racial, algo assim, mas não fiquei com o papel pois a equipe de direção me achou jovem demais para o papel. De fato, eu era. Lembro do Vavá Torres, caracterizador, pondo um cavanhaque postiço para eu fazer um teste. Nao deu. Mas Manga e Ulysses, esses dois diretores importantes na minha vida, decidiram que eu faria outro papel na novela! Que alegria! Eu precisava mesmo nao parar de trabalhar, comecei cedo, dependia daquilo existencial e materialmente. Decidiram que eu faria um papel, só nao sabiam qual nem quando entraria no ar, devido, principalmente, aos ajustes que a novela sofreu no ar.

Os meses se passaram, via meus amigos em cena - Lara Rodrigues, Isabelle Drummond também recem saídas do "Sítio" atuando -, as pessoas perguntando quando eu entraria em cena, e eu não sabia o que dizer. Estava deprimido, de verdade. Recebia, mas nao trabalhava. Até o dia, um domingo melancólico em fim de tarde, em que Ulysses enviava um email avisando que tinha chegado a hora. A novela estava quase acabando. Brinco dizendo que entrei aos quarenta do segundo tempo. Beth Jhin tinha escrito um papel reunindo várias caracteristicas minhas, o que, apesar do tempo que fiquei esperando, me deixou muito honrado - Beth, aliás, é uma pessoa muito afetuosa, generosa, espiritualizada. Meu personagem, Tadeu, tocava violino, como eu! Era irmão do padre que, inicialmente, eu faria, e surgia na trama fugido do seminrio Calaça, de Minas Gerais, porque queria ser artista, e não padre.

Fiquei um pouquinho mais de um mês no ar mas foi bom. Por alguns motivos: pelo carinho da escrita da Beth, que nem me conhecia pessoalmente mas me presenteou, estabelecendo um elo de trabalho a partir dali, que se estendeu para sua novela seguinte ("Escrito nas estrelas"); pela oportunidade de estar em um elenco de primeira grandeza, que reunia nomes como Irene Ravache, Cleyde Yáconis, Osmar Prado, Aracy Balabanian e Cássia Kiss. Tudo isso a despeito das dificuldades enfrentadas por aquela novela. Uma produção que foi brava, lutou e passou com dignidade. E foi bom, sobretudo, pelo carinho e, posso dizer, pela fidelidade de Manga e Ulysses.

Na ocasião da novela, antes dela estrear, liguei algumas vezes para a casa do Manga para falar sobre a oportunidade de estar na novela mesmo que com outro papel. As mãos e a voz tremiam com medo de incomodá-lo, afinal ele já era um senhor de oitenta anos! Mas ele me surpreendia, recebia o chamado da empregada, falava comigo e pedia para eu ficar tranquilo. Numa das vezes disse:
-Enquanto eu respirar, você pode ligar pra mim! - num modo bem Manga de ser e que muito me honra e emociona porque "Eterna magia" foi o meu primeiro contrato como adulto, com o qual pude mudar de casa para o Rio de Janeiro, o início de um novo ciclo na minha vida.
Quando entrei na novela, Manga me chamou em sua sala e disse:
-Não falei que você ia fazer a minha novela? Prometi e cumpri.
A personalidade de Manga era forte, daquelas de que era infinitamente melhor receber elogios, pois sua voz e seu rigor eram igualmente fortes, explosivos. Tive a felicidade de dois encontros profissionais com ele nos quais senti a grandeza de sua experiência e também de seu carinho e de sua generosidade comigo e com outros colegas.
Manga tinha um estilo próprio: magnético, elegante, apaixonado por Felini, uma personalidade sedutora.... Trazia o charme de uma escola de direção (dos anos 50, 60) que já não existe mais e de um modo particular, Manga era grande contador de histórias, um show-man! Uma enciclopédia e um ícone do cinema e da televisão brasileira.
Que honra eu tive de trabalhar com o Manga e participar de seus dois últimos trabalhos! Levarei esta lembrança para toda a vida.


"Manguianas":
- A "praia" do Manga era mesmo o cinema, sua paixão! Quando assumiu o "Sítio", lembro dele dizer que não gostava muito de teatro.  E falava abertamente, sem medo. Há tanta gente que não gosta de teatro e tem medo de dizer que não gosta. É um direito.
- Há um pensamento dele que nunca esqueci. Ele disse, certa vez: "O que o diretor não entende é que todo autor é um pouco diretor; e o que todo autor não entende é que todo diretor é também um pouco autor". Achei esse pensamento curiosíssimo, e logo o estendi, até hoje, à relação diretor-produtor e ator-diretor.








sábado, 5 de setembro de 2015

Artigo sobre obra de Antony Gormley

No final de 2013, tive a felicidade de ver publicado pela Revista Valise, do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), um artigo escrito por mim sobre a obra do escultor britânico Antony Gormley, que em 2012 teve mostra retrospectiva de seus trabalhos exposta no Centro Cultural Banco do Brasil (Rio e São Paulo).
No link abaixo, o artigo:
Na ocasião da mostra, fiquei impressionado com a capacidade da obra do escultor de mobilizar a cidade com suas esculturas. Isto porque muitas delas eram instaladas ao ar livre, em pontos urbanos de extrema circulação, buscando chamar o indivíduo à percepção de seu corpo (e anatomia) na interação do primeiro com o espaço, nas mais variadas posições e possibilidades. Buscando um diálogo entre o que chamei de "corpos-escultura" com o dramático (minha área mais imediata), fui instigado por matéria do jornalista Gilberto Scofield Jr. para o Jornal O Globo, e tracei uma relação entre um sentido possível de dramático nas obras do escultor britânico e o conceito "teatro pós-dramático" (proposto pelo teórico teatral alemão Hans-Thies Lehman). O trabalho foi também oportunidade para perceber interações históricas entre a escultura e poéticas do dramático, como o drama burguês (do século XVIII, período em que escultura e drama partilhavam a predominante visão ligada à então emergente classe burguesa da narrativa e de uma temporalidade linear e ascensional). 

A mostra foi, sem dúvida, uma das exposições mais marcantes a que já assisti, e a obra de Gormley passou a fazer parte das minhas principais referências de arte contemporânea.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Ao mestre mestre Rufino!

Faço aqui homenagem ao historiador e professor Joel Rufino dos Santos, que morreu hoje (4/9/15). Destaco de sua vasta obra, de mais de cinquenta livros publicados, "A história do negro no teatro brasileiro", obra que vem a ocupar lugar ainda tão carecente de pesquisa que é o olhar sobre a contribuição dos negros nas artes dramáticas brasileiras, com a constatação de que tanto sua invisibilidade quanto sua presença nos palcos ao longo do tempo refletem um país marcado por séculos de escravidão, atávico preconceito e a necessária criação de formas dramáticas populares e alternativas - como as óperas populares dos desfiles das escolas de samba, que este que vos escreve pesquisa. Tive, na noite de lançamento do livro, a oportunidade de conversar com o professor Joel sobre a presença atual do negro no teatro, no cinema e na televisão. Ele sinalizou um olhar positivo acerca das conquistas nesse tocante até aqui, mas sem apontar também a necessidade de mais avanços. Depois disso, mantivemos uma breve e estimulante troca de e-mails, nas quais ele foi sempre afetuoso. Gostaria de tê-lo como interlocutor ainda muitas vezes. Recebo com enorme tristeza a morte desse intelectual tão generoso.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

"Antologia do remorso"


“ANTOLOGIA DO REMORSO”: Em cartaz no Teatro Gonzaguinha, espetáculo marcado por simplicidade formal (centrando-se no jogo de um entrosado trio de atores), surge de coletânea de textos literários de forte inclinação (melo)dramática.

 

          Três cadeiras e três atores. É basicamente a partir desses seis elementos (apenas) que se constrói o espetáculo. Uma “Antologia” de cinco contos serve de base textual e a preservação do gênero literário dos mesmos é buscada pela encenação, que se utiliza de diversos expedientes para imprimir dinâmica dramática às narrativas.

          Antes de qualquer coisa, é preciso registrar que as cinco histórias possuem já considerável expressividade dramática, uma vez que suas situações e personagens são afeitas ao conflito e mesmo à desmesura, ao humor cáustico e ao patético encontráveis em muitos dos desejos e relações humanas. E nisso, vê-se inevitável aproximação de tal material “dramático” das histórias com o universo rodriguiano (em suas personagens, paixões e obsessões), que detalharemos mais adiante. Feita essa comparação que se demonstra movente na leitura do universo simbólico tratado pelo espetáculo, pode-se identificar, de modo mais preciso, a referência melodramática que o alicerça.

          O(s) texto(s) da autora Flávia Prosdocimi demonstra(m) buscar no recorrente uso do pretérito mais-que-perfeito (para falar de ação pretérita concluída antes de outra ação do passado ter se iniciado; ex.: contara, fizera etc) uma espécie de distanciamento imaginativo que reforce o caráter literário das suas histórias, o que em cena – de modo sagaz percebido pela direção – enfatiza o estabelecimento de um tempo relativamente anacrônico e por isso atraente (a sugerir os anos 1950, típico do universo de Nelson Rodrigues, junto à composição de um evocativo figurino burguês da mesma época). Porém, tal sensação de tempo pretérito das histórias desfaz-se e revela-se suficientemente atemporal devido ao repertório fundamental de acontecimentos abordados pelos contos que percorre as relações da “Comédia Humana” desde sempre: desejos, traições, vinganças, segredos, revelações... – alcançando e mantendo empatia com a plateia.

          Ainda sobre o texto, percebe-se nele eficiência enquanto conto e enquanto texto que serve à cena. Isto porque, respectivamente, os contos encenados estruturam-se de modo simples, com tramas concentradas e enxutas, curta duração e término que busca invariavelmente o surpreendente e o inusitado; e porque, no palco, tais contos, por conta de sua já mencionada verve apaixonada e de ações objetivas e claras, ganham interessante fluência no jogo cênico e na comunicação com o público. Note-se: um dos grandes “entraves” observados pela crítica na transposição do literário para o palco costuma ser justamente a carência do literário muitas das vezes (na verdade, a sua não obrigação) com a construção de um delineado fluxo de ação (que promova um arco de acontecimentos que se estenda de um estado inicial até uma transformação daquele), princípio básico de um entendimento mais convencional do dramático.      

 

Atuação e direção afinados em fazer do jogo dos atores o essencial

 

          No primeiro parágrafo foi citada a ocorrência de um conjunto de procedimentos operados pela encenação (de Daniel Belmonte) de modo a vestir dramaticamente os contos de Prosdocimi. Expedientes como a instauração de planos alto e baixo, e frente, médio e fundo para fins de geração de ação e movimentos; investimento dos estados de ânimo vividos pelos personagens à narração; exploração intensa dos diálogos (aspecto natural ao sentido convencional do gênero dramático); uso da técnica “coringa” (variação de atores no mesmo personagem), especialmente com mais liberdade a partir do segundo conto; construção de tipos desempenhados com vigor pelos atores. Tudo isso pode ser visto como demonstração de um dinamismo cênico imprimido ao material literário.

          Demonstra-se eficiente a solução do uso de cadeiras cujos assentos são, ao mesmo tempo, tampas que, quando abertas, revelam pequeno espaço guardador de objetos (como óculos, espanador e avental) a servirem como códigos definidores de novos personagens dentre os vários que aparecem nos contos.

          O trabalho gestual e de movimento corporal dos atores obedece um esgarçamento característico do exagero melodramático e é executado de modo reconhecível e equilibrado nas partituras dos três atores (Elisabeth Monteiro, Gustavo Barros e Tiago D’Ávila). A interpretação também dos personagens secundários, que abre de modo franco espaço para a composição de tipos, encontra no carisma da trinca, sem exceção, um dos pontos de maior sustentação e interação do espetáculo com o público. A vizinha maledicente, o filho afeminado, a empregada afetada ou o bêbado, dentre outros, conquistam a plateia com seus humores, dores e preconceitos – o riso do público garante que todos conhecemos essas personagens e suas histórias, pelo menos de modo parecido. E, mais uma vez, o universo de Nelson Rodrigues faz-se lembrar com “seus amores e seus pecados” burgueses e suburbanos – vide a fixação da mulher por um par de seios novos; a síndrome de marido traído acometida por um homem e a desconfiança sobre a mulher e os colegas de repartição; a mulher recatada que ao conhecer os prazeres do carnaval, abandona o parceiro fugindo com outro homem e quando volta encontra um marido resignado e submisso.    

          É com entrega, ritmo envolvente e despudor que o elenco, ponto central desse espetáculo, desenvolve seu trabalho. Destaque-se ainda a clareza entre os momentos de narração e os de falas/diálogo e ação, ou mesmo quando uma coisa contamina a outra com liberdades para a ocorrência de um “narrador intruso” (que se intromete na história) e é ironicamente chamado atenção pelos demais personagens/atores.

          Coube à direção, neste espetáculo de simplicidade de recursos e iniciativa de talentosos atores, favorecer o jogo dos intérpretes através de marcações ágeis e dinâmicas e conseguindo também driblar as modestas variações de luz com a presença viva do corpo dos atores e com alternâncias nas disposições das três cadeiras para o estabelecimento de diferentes ambientações. 

          É, desse modo, explorando a inteligência cênica dos atores, as possibilidades dramáticas dos textos e também o elemento musical (intrínseco à linguagem do melodrama) que o espetáculo tem no momento, na imagem e na execução de “O ébrio” (clássico de Vicente Celestino) por Gustavo Barros, um de seus pontos mais expressivos e interessantes. De modo curioso, neste momento, ante ao espetáculo de intesa presença verbal e sonora, têm-se uma espécie de cena muda com um esgarçamento da musculatura facial e gestual do ator, como que dublando a música em ária de ópera (destacado no proscênio) – o resultado impressiona, afeito que é aos arroubos interpretativos característicos do melodramático e que nos caminhos do mesmo a ópera cristalizou de maneira singular.

          A trilha musical, de fácil e imediata comunicação, pontua, via de regra, as transições de um conto para outro.

          “Antologia do remorso” é um espetáculo simples e feito com honestidade e talento, em que a simplicidade dos recursos não denota, em tempo algum, ausência de entendimento e cuidado; pelo contrário, é porta aberta para a criatividade de um elenco vigoroso e que escolhe, de maneira bastante adequada ao seu temperamento e virtudes cênicas, o melodrama.

          Um espetáculo que fala de questões espinhosas (a partir já do título de feições melodramáticas) sem a pretensão de ser denso ou sério. E por isso, diverte – o que a leveza da plateia confirma na saída do teatro.

 

domingo, 4 de janeiro de 2015

"Relatos Selvagens"




"Relatos selvagens" é um filme extraordinário!!! Trata da violência do ser humano em várias de suas formas através de seis histórias que causam um leque de sensações ao mesmo tempo, da repulsa ao riso mais desbragado. E faz rir porque expõe as violências possíveis do humano (supostamente racional, ético e moral ao absoluto) no ridículo ao qual é capaz de chegar, seja por paixão, frustração, corrupção, vingança, opressão do sistema... O filme reflete, critica e diverte. E faz algo que eu acho muito interessante: reinventa aquela velha têmpera latina (de intensidade, dor e sofrimento comuns nos melhores tangos), que a crítica do Cacá Diegues definiu muito bem ao chamar as histórias narradas no longa como "óperas trágicas cheias de humor", "neochanchada pós-moderna, culta e cruel". Palmas pro cinema argentino, mais uma vez!

sábado, 6 de dezembro de 2014

"Timão de Atenas"



     Vera Holtz, essa atriz excepcional faz em "Timon de Atenas" um trabalho fabuloso, dos mais vibrantes e completos que já vi! Que equilíbrio e força no arco dramático do personagem (do topo à queda) ! Que domínio e precisão nos momentos (muitas vezes simultâneos) de ironia e ira do personagem (que é um homem mas que na interpretação dessa atriz fica absolutamente crível). Que ousadia, que disponibilidade pra jogar e brincar! Isso é ator, isso é teatro!

     A encenação do Bruce Gomlevski, a partir da versão do National Theatre de Londres, é aguda, vigorosa, bem contextualizada culturalmente e crítica, trazendo à tona o que esse texto tem de perene e de tão pertinente ao nosso tempo: a reflexão sobre o poder nebuloso do dinheiro, as relações humanas momentâneas e escorregadias ao sabor da "cotação" de cada um no mercado e no jogo do poder (com seus privilégios) e a corrupção de valores, enquanto as manifestações populares sangram nas ruas... Mais de 400 anos depois nada mudou. 

     O cenário de Helio Eichbauer é arrojo e deslumbramento (como sempre!) num espetáculo com uma visualidade ao mesmo tempo contemporânea e sóbria (com o peso digno de um clássico shakespereano mas sem deixar de ser acessível e fluente e ágil, aliás isso acontece em todos os aspectos da encenação, a começar pela tradução). A trilha musical participa com ousadia, pontua, provoca e emociona. E que satisfação ver uma montagem com um elenco tão numeroso (26 atores) e competente! Tudo é bem dito por todos, tudo é claro, calibrado nas intenções, coeso e equilibrado em desempenhos de atores que têm inteligência, entendimento do texto e força em cena!! O resultado é um espelho eletrizante da alma humana como pede o bardo! 

sábado, 19 de julho de 2014

"Incêndios"




Tendemos a ver as tragédias quase sempre num lugar distante - nós, situados ou nesse aparente paraíso tropical chamado Brasil ou no tempo de suposta civilidade ocidental. Mas as tragédias estão aí e sob diferentes faces. Esse espetáculo, "Incêndios", uma pancada, me faz pensar sobre isso agora: nas nossas tragédias gregas contemporâneas (não considerando a dimensão sobrenatural do trágico mas as responsabilidades humanas). A guerra produz tragédias cotidianas, barbaridades que vão se banalizando, criando equívocos e coincidências assombrosos, esfacelando os estados de vínculo mais essenciais do humano - nas jihads do Oriente Médio ou nas guerrilhas urbanas daqui e de qualquer outro lugar. Há muito nada me impactava tanto em cena.

quarta-feira, 12 de março de 2014




Na pré-estreia do filme "Alemão", no Rio (10/03/2014).
Neste filme interpreto o personagem Pixixo, "correio" (ou mensageiro) do delegado Valadares (vivido por Antônio Fagundes) para informar a polícia sobre o andamento incursão pré-pacificação do complexo do Alemão. Direção de José Eduardo Belmonte.

Divulgo aqui o trailler do filme "Alemão", que estreia nesta quinta-feira (13 de março de 2014).


http://www.youtube.com/watch?v=pSUCc4Xp7ro