sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Ao mestre mestre Rufino!

Faço aqui homenagem ao historiador e professor Joel Rufino dos Santos, que morreu hoje (4/9/15). Destaco de sua vasta obra, de mais de cinquenta livros publicados, "A história do negro no teatro brasileiro", obra que vem a ocupar lugar ainda tão carecente de pesquisa que é o olhar sobre a contribuição dos negros nas artes dramáticas brasileiras, com a constatação de que tanto sua invisibilidade quanto sua presença nos palcos ao longo do tempo refletem um país marcado por séculos de escravidão, atávico preconceito e a necessária criação de formas dramáticas populares e alternativas - como as óperas populares dos desfiles das escolas de samba, que este que vos escreve pesquisa. Tive, na noite de lançamento do livro, a oportunidade de conversar com o professor Joel sobre a presença atual do negro no teatro, no cinema e na televisão. Ele sinalizou um olhar positivo acerca das conquistas nesse tocante até aqui, mas sem apontar também a necessidade de mais avanços. Depois disso, mantivemos uma breve e estimulante troca de e-mails, nas quais ele foi sempre afetuoso. Gostaria de tê-lo como interlocutor ainda muitas vezes. Recebo com enorme tristeza a morte desse intelectual tão generoso.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

"Antologia do remorso"


“ANTOLOGIA DO REMORSO”: Em cartaz no Teatro Gonzaguinha, espetáculo marcado por simplicidade formal (centrando-se no jogo de um entrosado trio de atores), surge de coletânea de textos literários de forte inclinação (melo)dramática.

 

          Três cadeiras e três atores. É basicamente a partir desses seis elementos (apenas) que se constrói o espetáculo. Uma “Antologia” de cinco contos serve de base textual e a preservação do gênero literário dos mesmos é buscada pela encenação, que se utiliza de diversos expedientes para imprimir dinâmica dramática às narrativas.

          Antes de qualquer coisa, é preciso registrar que as cinco histórias possuem já considerável expressividade dramática, uma vez que suas situações e personagens são afeitas ao conflito e mesmo à desmesura, ao humor cáustico e ao patético encontráveis em muitos dos desejos e relações humanas. E nisso, vê-se inevitável aproximação de tal material “dramático” das histórias com o universo rodriguiano (em suas personagens, paixões e obsessões), que detalharemos mais adiante. Feita essa comparação que se demonstra movente na leitura do universo simbólico tratado pelo espetáculo, pode-se identificar, de modo mais preciso, a referência melodramática que o alicerça.

          O(s) texto(s) da autora Flávia Prosdocimi demonstra(m) buscar no recorrente uso do pretérito mais-que-perfeito (para falar de ação pretérita concluída antes de outra ação do passado ter se iniciado; ex.: contara, fizera etc) uma espécie de distanciamento imaginativo que reforce o caráter literário das suas histórias, o que em cena – de modo sagaz percebido pela direção – enfatiza o estabelecimento de um tempo relativamente anacrônico e por isso atraente (a sugerir os anos 1950, típico do universo de Nelson Rodrigues, junto à composição de um evocativo figurino burguês da mesma época). Porém, tal sensação de tempo pretérito das histórias desfaz-se e revela-se suficientemente atemporal devido ao repertório fundamental de acontecimentos abordados pelos contos que percorre as relações da “Comédia Humana” desde sempre: desejos, traições, vinganças, segredos, revelações... – alcançando e mantendo empatia com a plateia.

          Ainda sobre o texto, percebe-se nele eficiência enquanto conto e enquanto texto que serve à cena. Isto porque, respectivamente, os contos encenados estruturam-se de modo simples, com tramas concentradas e enxutas, curta duração e término que busca invariavelmente o surpreendente e o inusitado; e porque, no palco, tais contos, por conta de sua já mencionada verve apaixonada e de ações objetivas e claras, ganham interessante fluência no jogo cênico e na comunicação com o público. Note-se: um dos grandes “entraves” observados pela crítica na transposição do literário para o palco costuma ser justamente a carência do literário muitas das vezes (na verdade, a sua não obrigação) com a construção de um delineado fluxo de ação (que promova um arco de acontecimentos que se estenda de um estado inicial até uma transformação daquele), princípio básico de um entendimento mais convencional do dramático.      

 

Atuação e direção afinados em fazer do jogo dos atores o essencial

 

          No primeiro parágrafo foi citada a ocorrência de um conjunto de procedimentos operados pela encenação (de Daniel Belmonte) de modo a vestir dramaticamente os contos de Prosdocimi. Expedientes como a instauração de planos alto e baixo, e frente, médio e fundo para fins de geração de ação e movimentos; investimento dos estados de ânimo vividos pelos personagens à narração; exploração intensa dos diálogos (aspecto natural ao sentido convencional do gênero dramático); uso da técnica “coringa” (variação de atores no mesmo personagem), especialmente com mais liberdade a partir do segundo conto; construção de tipos desempenhados com vigor pelos atores. Tudo isso pode ser visto como demonstração de um dinamismo cênico imprimido ao material literário.

          Demonstra-se eficiente a solução do uso de cadeiras cujos assentos são, ao mesmo tempo, tampas que, quando abertas, revelam pequeno espaço guardador de objetos (como óculos, espanador e avental) a servirem como códigos definidores de novos personagens dentre os vários que aparecem nos contos.

          O trabalho gestual e de movimento corporal dos atores obedece um esgarçamento característico do exagero melodramático e é executado de modo reconhecível e equilibrado nas partituras dos três atores (Elisabeth Monteiro, Gustavo Barros e Tiago D’Ávila). A interpretação também dos personagens secundários, que abre de modo franco espaço para a composição de tipos, encontra no carisma da trinca, sem exceção, um dos pontos de maior sustentação e interação do espetáculo com o público. A vizinha maledicente, o filho afeminado, a empregada afetada ou o bêbado, dentre outros, conquistam a plateia com seus humores, dores e preconceitos – o riso do público garante que todos conhecemos essas personagens e suas histórias, pelo menos de modo parecido. E, mais uma vez, o universo de Nelson Rodrigues faz-se lembrar com “seus amores e seus pecados” burgueses e suburbanos – vide a fixação da mulher por um par de seios novos; a síndrome de marido traído acometida por um homem e a desconfiança sobre a mulher e os colegas de repartição; a mulher recatada que ao conhecer os prazeres do carnaval, abandona o parceiro fugindo com outro homem e quando volta encontra um marido resignado e submisso.    

          É com entrega, ritmo envolvente e despudor que o elenco, ponto central desse espetáculo, desenvolve seu trabalho. Destaque-se ainda a clareza entre os momentos de narração e os de falas/diálogo e ação, ou mesmo quando uma coisa contamina a outra com liberdades para a ocorrência de um “narrador intruso” (que se intromete na história) e é ironicamente chamado atenção pelos demais personagens/atores.

          Coube à direção, neste espetáculo de simplicidade de recursos e iniciativa de talentosos atores, favorecer o jogo dos intérpretes através de marcações ágeis e dinâmicas e conseguindo também driblar as modestas variações de luz com a presença viva do corpo dos atores e com alternâncias nas disposições das três cadeiras para o estabelecimento de diferentes ambientações. 

          É, desse modo, explorando a inteligência cênica dos atores, as possibilidades dramáticas dos textos e também o elemento musical (intrínseco à linguagem do melodrama) que o espetáculo tem no momento, na imagem e na execução de “O ébrio” (clássico de Vicente Celestino) por Gustavo Barros, um de seus pontos mais expressivos e interessantes. De modo curioso, neste momento, ante ao espetáculo de intesa presença verbal e sonora, têm-se uma espécie de cena muda com um esgarçamento da musculatura facial e gestual do ator, como que dublando a música em ária de ópera (destacado no proscênio) – o resultado impressiona, afeito que é aos arroubos interpretativos característicos do melodramático e que nos caminhos do mesmo a ópera cristalizou de maneira singular.

          A trilha musical, de fácil e imediata comunicação, pontua, via de regra, as transições de um conto para outro.

          “Antologia do remorso” é um espetáculo simples e feito com honestidade e talento, em que a simplicidade dos recursos não denota, em tempo algum, ausência de entendimento e cuidado; pelo contrário, é porta aberta para a criatividade de um elenco vigoroso e que escolhe, de maneira bastante adequada ao seu temperamento e virtudes cênicas, o melodrama.

          Um espetáculo que fala de questões espinhosas (a partir já do título de feições melodramáticas) sem a pretensão de ser denso ou sério. E por isso, diverte – o que a leveza da plateia confirma na saída do teatro.

 

domingo, 4 de janeiro de 2015

"Relatos Selvagens"




"Relatos selvagens" é um filme extraordinário!!! Trata da violência do ser humano em várias de suas formas através de seis histórias que causam um leque de sensações ao mesmo tempo, da repulsa ao riso mais desbragado. E faz rir porque expõe as violências possíveis do humano (supostamente racional, ético e moral ao absoluto) no ridículo ao qual é capaz de chegar, seja por paixão, frustração, corrupção, vingança, opressão do sistema... O filme reflete, critica e diverte. E faz algo que eu acho muito interessante: reinventa aquela velha têmpera latina (de intensidade, dor e sofrimento comuns nos melhores tangos), que a crítica do Cacá Diegues definiu muito bem ao chamar as histórias narradas no longa como "óperas trágicas cheias de humor", "neochanchada pós-moderna, culta e cruel". Palmas pro cinema argentino, mais uma vez!

sábado, 6 de dezembro de 2014

"Timão de Atenas"



     Vera Holtz, essa atriz excepcional faz em "Timon de Atenas" um trabalho fabuloso, dos mais vibrantes e completos que já vi! Que equilíbrio e força no arco dramático do personagem (do topo à queda) ! Que domínio e precisão nos momentos (muitas vezes simultâneos) de ironia e ira do personagem (que é um homem mas que na interpretação dessa atriz fica absolutamente crível). Que ousadia, que disponibilidade pra jogar e brincar! Isso é ator, isso é teatro!

     A encenação do Bruce Gomlevski, a partir da versão do National Theatre de Londres, é aguda, vigorosa, bem contextualizada culturalmente e crítica, trazendo à tona o que esse texto tem de perene e de tão pertinente ao nosso tempo: a reflexão sobre o poder nebuloso do dinheiro, as relações humanas momentâneas e escorregadias ao sabor da "cotação" de cada um no mercado e no jogo do poder (com seus privilégios) e a corrupção de valores, enquanto as manifestações populares sangram nas ruas... Mais de 400 anos depois nada mudou. 

     O cenário de Helio Eichbauer é arrojo e deslumbramento (como sempre!) num espetáculo com uma visualidade ao mesmo tempo contemporânea e sóbria (com o peso digno de um clássico shakespereano mas sem deixar de ser acessível e fluente e ágil, aliás isso acontece em todos os aspectos da encenação, a começar pela tradução). A trilha musical participa com ousadia, pontua, provoca e emociona. E que satisfação ver uma montagem com um elenco tão numeroso (26 atores) e competente! Tudo é bem dito por todos, tudo é claro, calibrado nas intenções, coeso e equilibrado em desempenhos de atores que têm inteligência, entendimento do texto e força em cena!! O resultado é um espelho eletrizante da alma humana como pede o bardo! 

sábado, 19 de julho de 2014

"Incêndios"




Tendemos a ver as tragédias quase sempre num lugar distante - nós, situados ou nesse aparente paraíso tropical chamado Brasil ou no tempo de suposta civilidade ocidental. Mas as tragédias estão aí e sob diferentes faces. Esse espetáculo, "Incêndios", uma pancada, me faz pensar sobre isso agora: nas nossas tragédias gregas contemporâneas (não considerando a dimensão sobrenatural do trágico mas as responsabilidades humanas). A guerra produz tragédias cotidianas, barbaridades que vão se banalizando, criando equívocos e coincidências assombrosos, esfacelando os estados de vínculo mais essenciais do humano - nas jihads do Oriente Médio ou nas guerrilhas urbanas daqui e de qualquer outro lugar. Há muito nada me impactava tanto em cena.

quarta-feira, 12 de março de 2014




Na pré-estreia do filme "Alemão", no Rio (10/03/2014).
Neste filme interpreto o personagem Pixixo, "correio" (ou mensageiro) do delegado Valadares (vivido por Antônio Fagundes) para informar a polícia sobre o andamento incursão pré-pacificação do complexo do Alemão. Direção de José Eduardo Belmonte.

Divulgo aqui o trailler do filme "Alemão", que estreia nesta quinta-feira (13 de março de 2014).


http://www.youtube.com/watch?v=pSUCc4Xp7ro

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Lacan em versos ou "arrancar poemas presos"

Ando lendo - muito - para minha pesquisa de mestrado. Evidente. Investigando nas últimas semanas as abordagens psicanalíticas para o corpo, achei muito impactante em Lacan, via J. -D. Nasio, mais precisamente quando o psicanalista francês apresenta o conceito "gozo" e seu intérprete, Nasio, desenvolve-o em 5 lições sobre a Teoria de Jacques Lacan

Gozo (essa energia fundamental cujo lugar é o corpo e que é responsável por nos conferir ânima - seja alegria, seja dor e sofrimento). Nasio relata o caso de uma paciente e nos fala do gozo como presente também nos tumores, do gozar do tumor. E esta imagem é tremendamente forte! Mas, em certo sentido, até trivial do ponto de vista científico, claro. Afinal, tumor é relevo, sinal (ou sintoma) de células que como nós possuem vida. Só que são vidas nocivas para os nossos órgãos e sistemas. Tumor como corpo gozoso que se infesta.

O fato é que daí lembrei de dois poemas da admirável filósofa e poeta Viviane Mosé que li há alguns anos em Pensamento chão - poemas em prosa e verso. Seus versos nos fazem estarrecidos diante de sua coragem de tratar com contundência opinativa tema tão espinhoso e doloroso, mas, em três poemas sequenciais, parece nos dar uma possibilidade, como todo ser poeta sensível.

A maioria das doenças que as pessoas têm
São poemas presos.
Abcessos, tumores, nódulos, pedras são palavras
Calcificadas,
Poemas sem vazão.

Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado.
Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema.
Mas não.

Pessoas às vezes adoecem da razão
De gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima


Lágrima é dor derretida.
Dor endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida.
Alegria endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida.
Raiva endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida.
Pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor,
Tempo derretido é poema.


Receita para arrancar poemas presos:
Você pode arrancar poemas presos com pinças,
Buchas vegetais, óleos medicinais,
Com as pontas dos dedos, com as unhas.
(...)

Mas não use bisturi quase nunca.
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas,
Endurecidos do corpo.
(...)

                    (Viviane Mosé)

P.S.: Esta postagem dedico à minha querida amiga que não vejo há muito tempo, Annabel Albernaz. Foi com ela, na época da graduação em Teatro, na Unirio, que aprendi a conhecer (ainda que de longe) o pensamento psicanalítico e lacaniano, no qual agora me aventuro com um pouco mais de profundidade, porém sem a erudição da minha amiga neste domínio. Annabel, um beijo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Livreiros!

O que seria das nossas vidas sem os livreiros? Nas livrarias que frequento sei o nome de cada um deles. Bons amigos que se tornam após tanto enchermos a sua paciência. Amizades que se criam em papos ao mesmo tempo informais e cultos sobre e próximo às páginas dos livros. 


14/03: DIA DO LIVREIRO! Ele também tem um dia para chamar de seu! Viva!


- Deus, livrái-los de todo mal. Amém!


P.S.: O meu abraço todo especial aos livreiros da Livraria da Travessa (da Sete de Setembro, Rio) que me aguentam: Leila, Marcos, Luiz Claudio... E a todos os da Travessa da Rua do Ouvidor, Rio Branco, Barra; da Leonardo da Vinci; dos sebos do Centro do Rio, com ênfase para os de arredores da Praça Tiradentes!  

P.S2.: Abaixo, a homenagem do escritor Xico Sá no blog da Folha de São Paulo a todos os livreiros.