sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Masemba, kusemba, semba, samba

Hoje, dia dois de dezembro, dia nacionalmente dedicado ao samba, este monumento da nossa cultura cuja matriz descende de África, continente tão sofrido por contingências históricas quanto surpreendente e criativo por paradoxo e alguma espécie de resistência e teimosia, fico - por motivos óbvios - com os versos inspiradamente poéticos de duas canções de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.

Presença agônica da morte e da melancolia chorando ao violão, marcas permanentes na obra de Nelson Cavaquinho, um poeta do povo. Reparem na presença constante, também, na maneira como o eu-lírico na letra de cada canção se auto-define como poeta, algo quase como, a um só tempo, exercício de confissão e metalinguagem, de maneira simples, sutil.


"Em Mangueira
Quando morre um poeta
Todos choram
Vivo tranquilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar quando eu morrer

Mas o pranto em Mangueira é tão diferente
É um pranto sem lenço
Que alegra a gente
Hei de Ter um alguém
Pra chorar por mim
Através de um pandeiro e de um tamborim"
                                             (Pranto de poeta)

"Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando.
Quando o tempo avisar
Que não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade"
                                                (Folhas secas)


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Auto-revelação

Acabo de descobrir que estou preocupado demais com o futuro.
Querendo controlar os passos, o destino...


Destino?
Bom, se ele existir de fato será à minha revelia, não é mesmo? 


Por isso, é preciso deixar correr... e viver.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A irritação da espera, uma velha sábia e quarenta minutinhos mágicos


Já não me lembro ao certo como iniciou-se a nossa conversa dentro daquele voo cujo atraso já avançava mais de uma hora de espera. E isto numa simples ponte-aérea, em parâmetros já instituídos não operantes de uns tempos para cá no nosso caos infra-estrutural e aéreo de país-sede de Copa e Olimpíadas... (Meu Deus, o que é que ainda encararemos até esses eventos em aeroportos como Congonhas, Tom Jobim, Guarulhos, Santos Dumont...?).

Sentei numa das poltronas localizadas na parte inicial do avião, diferentemente da maioria dos colegas que vinham comigo do mesmo evento, o Trofeu Raça Negra 2011. Era a minha vontade de, assim que o avião aterrisásse, eu pudésse me livrar o mais rápido possível da aventura que é voar hoje no Brasil. Ao meu lado, na poltrona do meio, estava um senhora num traje não muito frequente em pessoas da sua idade: um chapéu panamá, jaqueta vermelha (para abrigar-se da baixa temperatura paulistana), calça jeans já bem desbotada e um par de tênis. Agora recobro pela memória que no princípio do nosso bate-papo (que viria a ser iluminado) fiz menção sobre seu chapéu a la Tom Jobim. Ela me disse que vinha de Florianópolis após passeio a cidades do interior do Chile e que fizera escala na capital catarinense mais por insistência dos amigos do sul do país. Tudo com muita leveza e sem aborrecimentos, diferentre de mim, todo o fastio, pelo atraso do voo, pelo sono da noite anterior mal dormida, por minhas revistas (possibilidades atraentes de distração) terem ficado na mala despachada por insistência de um funcionário da companhia aérea e por outras cositas que não vale a pena ressuscitar aqui.

Muito vívida, Dona Arminda, que só depois, no fluxo da conversa, fui saber que assim se chamava, perguntou-me de onde vinha aquela trupe animada de figuras de pele negra da qual eu fazia parte. Devo dizer que ela em nenhum momento foi preconceituosa ou exerceu discrimanação racial. Percebeu, na verdade, a relação entre aqueles artistas que conversavam enquanto entravam no avião.

Disse a ela de onde vínhamos, expliquei a natureza do evento e a entidade mantenedora, respectivamente, a promoção da cultura negra e de seus fazedores e a Universidade UniPalmares, da cidade de São Paulo. Dona Arminda revelou ter admiração pela colega e atriz Elisa Lucinda, uma das integrantes da trupe, lembrando de uma peça sua que assistira. Perguntei, então, se não queria conhecê-la depois, já no Santos Dumont, no Rio, prometendo mediar o encontro entre artista e fã, mas a senhora, muito ética e discreta, disse-me que os artistas também tem o direito de descansarem e não serem abordados em circunstâncias como aquela. Achei um pouco exagerado, insisti em promover o encontro entre as duas, mas ela se manteve na mesma posição e eu, afinal, compreendi.

De repente, parecia não existir mais assunto e que haveria entre nós aquele vácuo sepulcral e constrangedor que costuma ocorrer entre dois indivíduos que dividem assentos próximos num vagão de metrô, num banco de ônibus ou em poltronas de avião. Foi assim na ida para São Paulo... Até quando o sujeito me fez a gentileza de repassar as embalagens do meu lanche que à comissária, permaneceu calado, como que acelerando o processo para que não fosse incomodado na música que ouvia no seu i-fone. E quando eu fazia fotos da paisagem vista pela janela ao aterrissar, parecia desaprovar minha ação, com ar de superioridade – devia me considerar um idiota, menos assíduo viajador do que ele...

Ao voltar o olhar para Dona Arminda eu a percebi comovente: pequenina, o rosto ainda menor quase todo dentro do chapéu, com a mãozinha direita apoiando o queixo como que tentando dormir mas sem conseguir, provavelmente se sentindo só... Achei que queria conversar mais e que eu de repente a fiz pensar que ela estava me atrapalhando. Então agora eu foi quem "puxou" assunto:

  • Dormiu?
  • Não.
  • Ãhh, porque eu não consigo dormir dentro de ônibus, táxi, muito menos de avião.
  • Também não...
  • Mas a senhora veio de onde?
E então ela me contou o que já revelei no início desta crônica. Depois, comentou que a vida de artista deveria ser bem difícil, instável e sem o glamour que as pessoas costumam ver nessa profissão. Confirmei sua especulação mas acrescentei que os prazeres de estar num palco recompensam toda nossa luta.

Para não deixar o bate-papo morrer, aproveitei o momento em que o aeroplano alçava seu voo e revelei que viajar de avião é uma coisa que me deixa sempre um pouco tenso, principalmente quando decola e quando encara turbulências. E com a fragilidade do nosso serviço aéreo então...

  • Ih, mas de Florianópolis pra cá, peguei muito mais turbulência – minimizou ela com naturalidade.

A senhora me disse ainda que, nesses casos, a gente deve mentalizar uma luz branca sobre o nosso destino de chegada e imaginar o contato, os abraços entre nós e as pessoas e as coisas queridas que nos esperam, agindo como se já estivéssemos "lá". "As pessoas não entendem que a força do pensamento é maior que tudo", me exortou, sem omitir que devemos ter cuidados, precauções na vida, é claro.

Se a companhia já me estava sendo agradável, senti que com estas palavras acima eu estava ao lado de uma pessoa muito especial e iluminada. Dona Arminda me falou da presença do pensamento positivo em sua vida. Perguntei se tinha religião, ela respondeu que de católica evoluiu com o tempo ao espiritismo, contou experiências de sua vida bastante pobre no início do casamento com o ex-marido, suas ocupações antes e depois da aposentadoria etc etc etc. Contou-me que começou no serviço público servindo cafezinho e terminou advogada, mesmo numa época de opressão sobre as mulheres. Lembrei de meu avô falecido recentemente, de sua história de superação, saindo da roça, alfabetizando-se aos dezoito anos e tornando-se médico veterinário anos depois. Fiquei emocionado. Contei a ela.

Mas, na verdade, eu só queria ouví-la. Até o momento em que a senhora pediu para que eu falasse um pouco de mim. Não costumo - nem mesmo tenho o gosto- de falar de coisas muito pessoais. Exagero meu fruto do medo de ser narcisista e de meu modo encimesmado, desconfiado. Mas, depois de pensar um pouco, abri-lhe algo que me acabrunha constantemente: o descontentamento com a falta de critérios de avaliação (de crítica e de público) que observo em meu meio profissional, o receio de não reconhecerem o quanto estudo e me esrforço, o medo ter feito a escolha errada apesar do amor desmedido pelo ofício... as injustiças, as inseguranças geradas por ser artista no Brasil, especialmente.

E novamente Dona Arminda me veio com a bendita "luz branca":

  • Olha, não tenha pressa de nada, não fique ansioso e nem tenha medo. Apenas tenha em mente que você terá aquilo que deseja. Pense, no fundo, que você já é aquilo que busca... E verá que logo seu sonho vai se realizar! Certa vez meu ex-marido e eu não tínhamos um centavo para irmos trabalhar. Pedi a Deus com toda a fé e logo encontramos um dinheito no chão cujo valor pagava nossas passagens de ida – a volta, já seria outra história... Pode acreditar em mim! Pense positivo e todos, logo, também acreditarão no seu sonho!

Os aproximadamente quarenta minutos de ponte-aérea já estavam perto de terminar, mas nossa conversa fluía. Meu diálogo com as pessoas mais velhas, aliás, sempre foi muito intenso. Se sempre nutri um forte sentimento de inadequação ante às coisas (e às multidões) especialmente durante a adolescência, isso, porém, jamais o foi com os mais velhos. Não sei explicar. Uma moça, pelo porte delgado e pela conversa que mantinha do outro lado do corredor, de vez em quando parecia admirar a cumplicidade de velhos amigos que Dona Arminda e eu demonstrávamos.

Houve tempo para a pequena senhora solitária – cuja filha vive em Teresópolis com a família e o filho, no exterior - falar-me, ainda, da atividade como voluntária que exerce há dez anos numa fundação para cuidar de crianças com câncer. Contou como é bonto o trabalho de dar suporte às crianças (e seus pais) que vem de longe e que não possuem recursos para manter os gastos da doença e da distância; como é tocante ajudar a dar dignidade a vidas mesmo que no breve período que lhes resta; como que o primeiro contato de espanto com crianças muitas vezes já mutiladas por consequências da doença se converte imediatamente numa revalorização da vida nos seus aspectos mais simples em vez de reclamar, reclamar e reclamar de coisas tão pequenas quando se tem saúde.

Dona Arminda disse que sua fundação precisa de voluntários homens. Ficou o convite, entendi logo – por ser homem e por ser artista, o que estimula muito engajamento de outras pessoas. Trocamos e-mails e telefones. Mas pediu para que a procurasse antes do dia vinte de janeiro, pois sua próxima viagem será nesta data, rumo ao Leste Europeu. As maçãs enrugadas de seu rosto e seus lábios encheram-se de prazer ao falar das cidades já visitadas: Paris, Moscou, Atenas... e agora Praga, Viena, Budapeste...

Prometeu me enviar um e-mail com detalhes sobre a fundação e pediu para que eu fosse logo, "antes dela morrer". E eu disse "que é isso, Arminda!", pois ela já me pedira para não chamá-la nem de "dona" nem de "senhora". (Mas fiquei pensando, na verdade até agora penso se não foi um sinal a condição que me impôs: "antes de ela morrer...". Bom, ligarei ainda essa semana, se minha memória não falhar). Para arrematar aquele encontro com um tirada digna de um contista que calcula os passoa rumo ao momento final surpreendente de uma narrativa, ela mandou:

  • Você já voou de paraquédas?
  • Ãhn?
  • De paraquedas, eu disse?

Fiquei passado! Disfarcei o quanto pude para a boca não cair.

      • (Minha réplica foi o silêncio)
      • Pois faça. É o melhor remédio para se perder o medo. No início dar uma coisa no estômago, mas depois, é uma beleza, uma liberdade indescritível! Faça isso!

Eu, jovem velho, com tantos medos, e ela, idosa, tão disposta. E antes a própria chegou a perguntar se eu conhecia a diferença entre velho e idoso. Você já pode imaginar qual é. Idosa é a cronologia, irremediável; velha ou jovem pode ser a alma – independente de idade. Sinto que ela percebeu no seu íntimo que eu precisava ouvir tudo o que ela me disse. Um anjo enviado por Deus, a Dona Arminda!

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Percebi que apesar de toda aquela espera causada pela má adiministração corriqueira e das autoridades de nosso país que não aplicam como devem o dinheiro de nossos impostos, antes de embarcar naquele voo eu estava irritadiço demais, cansado demais daquilo e de outras cositas pelas quais não merecem que nos consumamos tanto, principalmente quando só se tem vinte e poucos anos... Eu stava "velho" e Dona Arminda me rejuvenesceu, me devolveu, na verdade, à idade eterna dos que sonham.


Izak Dahora

sábado, 6 de agosto de 2011

Baudelaire

"O que não é ligeiramente disforme parece insensível - donde decorre que a irregularidade, isto é, o inesperado, a surpresa, o espanto sejam uma parte essencial da característica da beleza. O Belo sempre é estranho."


                                                (Baudelaire, poeta francês - extraído da introdução de "Ler o teatro contemporâneo", de Jean-Pierre Ryngaert).

Ítalo - ou a morte de um ator cuja história é parte da evolução do teatro brasileiro moderno.



Uma voz marcante, uma máscara facial e movimentos econômicos mas que poderiam carregar nas tintas para uma comédia mais desabrida, caso fosse necessário.

Mais do que ter podido acompanhar a carreira teatral de Ítalo, comprovei sua importância de Ator emblemátco nos compêndios sobre a evolução e a modernização do teatro brasileiro. Seu nome e sua imagem são figuras que não podem faltar a qualquer livro que se arvore a acompanhar a trajetória dos nossos palcos dos anos cinquenta para cá.

Egresso do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) do industrial paulista e mecenas Franco Zampari (donde vieram também Cacilda, Cleide, Maria della Costa, Walmor Chagas, Fernanda, Sérgio, Tônia Carrero, Paulo Autran, e muitos outros deuses deste olimpo teatral), Ítalo fez parte de uma geração que pavimentou o caminho para que hoje pudéssemos ser atores mais dignos nesse país (não consigo me furtar da voz de ator nessa pequena homenagem).

Até então, nossos palcos eram predominantemente ocupados por iniciativas centradas no personalismo e no carisma de alguns atores e empresários, talentosos e importantes para nossa produção como Leopoldo Fróes e Procópio Ferreira, mas que não ousaram a ponto de engajarem-se num projeto mais ambicioso artísticamente e que colocasse o Brasil na atualidade do que então se fazia mundo afora. Foi com a geração de Ítalo que começamos a ver desde o TBC e passando pelo seu Teatro do Sete, por exemplo, (companhia sua com Sérgio, Fernando e Fernanda) repertórios que mesclavam num sentido sistemático, as peças de vaudeville ou boulevard de um Feydeau, de mais proximidade com as necessidades comerciais de toda companhia até autores como Bernard Shaw e Pirandelo, para citar dois. Colocação em prática de novos projetos de encenação fundados numa dramaturgia mais densa e consistente, de complexidades filosóficas e psicológicas a exigirem estudo minucioso de diretores e atores. Não havia mais espaço para o ponto (alguém que soprava o texto de dentro de um cadafalso) e nem para o caco (improviso a fim de "ganhar" a plateia normalmente com piadas e maneirismos imediatos.

Ítalo e sua geração participaram ainda do Grande Teatro Tupi, movimento pioneiro que buscava descobrir uma linguagem televisiva nos primórdios do veículo, levando ao público peças de autores fundamentais como Shakespeare, Eugene O'Neill, Arthur Miller e Tenessee Williams, e ao vivo.

Pela vinculação de seus pares e contemporâneos a um teatro que buscou sua base no texto dramático, intacto das interferências vaidosas dos intérpretes, Ítalo esteve íntimo da palavra e fez uso dela com sofisticação e maestria. Nesta entrevista que se segue, concedida a Geneton Moraes Neto pode-se perceber como que o grande ator enfatiza aquelas palavras que vê com mais necessidade de impacto, de um modo teatral e sincero.

Um ator "cerebral, cerebrino" - precisa e bela definição da crítica Tania Brandão em O Globo de 4/8 - e que nos emocionava pela maneira (moderna) de expressar-se permitindo o bailado do pensamento, das ideias e das palavras em sua face limpa, econômica, sucinta.

Grandes atores e personalidades como Ítalo não morrem. Vivem, insistem na lembrança.


Izak Dahora

sábado, 30 de julho de 2011

Tentando organizar os poemas escritos na feitura de um livro tão sonhado ainda não publicado. Força! Tempo!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Projeto de prolixo

              à tirania do verbo, do verso e da linguagem

eu quero falar cada vez menos
eu quero falar mais com menos
quero falar menos para ouvir os falantes de outras falanges.
e satisfazer meu interlocutor de entendimento.
quero dizer tudo com aparentemente nada
eu quero falar menos difícil e ser claro como a água.
eu quero meu monólogo de um modo mais diálogo
menos bife e mais grãos. menos texto mais contexto.
Eu quero eu menos só
                                 lilóquio


Izak Dahora

A Mário de Sá Carneiro

Não sou exatamente um engodo, uma fraude,
gênero de farsa, pseuda obra-prima da linguagem
como também escapo da autodefinição de superhomem,
de máquina.

Sou ao fim o meio
“qualquer coisa de intermédio”, às vezes grande às vezes pequeno
na maior parte do tempo medíocre,
cônscio da ignorância fundamental de todos,
mas convicto de ter algum recheio
não sendo simplesmente casca, eu.

Tentando escapar dos riscos da bipolaridade,
feliz pelo auge e pela queda
-pois ambos partes de meu todo ambíguo- vou errando...

E daqui a alguns anos, lá na linha de chegada
com o peso dos anos e os erros da experiência
poderei me dizer pouco mais que razoável.


Izak Dahora

Sonho de trova


Meu sonho é ver meu verso virar canção.
Não lê-lo; ouví-lo, quando neste dia
for surpreendido pela nova possibilidade
de algo que rompeu de mim e eu não percebia.
Quando tudo que me é ruído e som das vozes que me
assaltam e as escrevo, se tornarem melodia.
Quero ser um trovador
Quero ser o que já foi caminhando errante
sobre os caminhos de pedra da Idade Média
embriagado em noite alta.
E gozar de ver meu verso fazer soprar delírios
nos ouvidos da mulher amada.


Izak Dahora