sábado, 12 de fevereiro de 2011

Confidência da febre.

Tenho na gaveta – ou melhor, nos arquivos do meu computador – entre outros tantos projetos, uma peça e um romance. Na verdade ainda mais o sonho em tentativa de andamento de uma coisa e outra. Devo trabalhar neles há uns três anos desde que tive as ideiais iniciais. E as dificuldades têm sido duas: tempo para me debruçar sobre eles, já que tenho que trabalhar e honrar os compromissos da vida adulta e porque faltam algumas vezes ideias para solucionar questões que eu mesmo crio nas minhas ficções.

E no meio disso tudo tem a música, meus poemas, a vida...

Talvez me falte também maturidade e minhas tão sonhadas obras tenham que esperar mais outros três anos, quem sabe? Edney Silvestre não teve que trabalhar e pesquisar, simultaneamente à atribulada vida de jornalista, vinte anos até que concluísse o reconhecido “Se eu fechar os olhos agora”? Sua espera e trabalho vieram, inclusive, premiados, de um prestigioso Prêmio Jabuti 2010. E assim for a com outros tantos escritores e outras tantas obras.
Compartilhei um pouco da minha febre criativa aqui no blog. E sei que isso não foi em vão: minhas ideias respirarão nessa espécie de work in progress. E o retorno dos que lerem essa confidência também encherão de ânimo e frescor meus projetos. Tenho certeza.



Izak Dahora.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Do que tenho lido: Nietzsche e a tragédia grega.

"(...) Para servir-nos da terminologia de Platão, poderíamos dizer, das figuras trágicas do palco helênico, mais ou menos isto: o único Dionísio verdadeiramente real aparece em uma pluralidade de figuras, sob a máscara de um herói combatente e como que emaranhado na rede da vontade individual. E assim que o deus ao aparecer, fala e age, ele se assemelha a um indivíduo que erra, se esforça e sofre: esse, em geral, aparece com essa precisão e nitidez épicas, isso é o efeito de Apolo, esse decifrador de sonhos, que evidencia ao coro seu estado dionisíaco por meio dessa aparição alegórica. Em verdade, porém, esse herói é o Dionísio sofredor dos Mistérios, aquele deus que experimenta em si o sofrimento da individuação, do qual mitos maravilhosos contam que, quando rapaz, foi despedaçado pelos Titãs e nesse estado é venerado como Zagreu: o que sugere que esse despedaçamento, em que consiste propriamente a paixão dionisíaca, equivale a uma transformação emar, água, terra e fogo, e que portanto temos de considerar o estado da individuação como a fonte e o primeiro fundamento de todo sofrimento, como algo repudiável em si mesmo. Do sorriso desse Dionísio nasceram os deuses olímpicos, de suas lágrimas os homens. Nessa existência como deus despedaçado, Dionísio tem a dupla natureza de um demônio horripilante e selvagem e de um soberano brando e benevolente. Mas a esperança dos epoptes era um renascimento de Dionísio, que agora pressentimos como o fim da individuação: era para esse terceiro Dionísio vindouro que soava o fervoroso canto de júbilo dos epoptes. E somente nessa esperança há um clarão de alegriano semblante do mundo dilacerado, destroçado em indivíduos: assim como o mito o mostra na imagem de Deméter mergulhada em eterno luto, que pela primeira vez se alegra ao lhe dizerem que pode dar à luz Dionísio mais uma vez. Nas intuições mencionadas temos já todos os componentes de uma visão do mundo profunda e pessimista e com eles, ao mesmo tempo, a doutrina da tragédia que está nos Mistérios: o conhecimento fundamental da unidade de tudo que existe, a consideração da individuação como o primeiro fundamento do mal, a arte como a alegre esperança de que o exílio da individuação pode ser rompido, como o pressentimento de uma unidade restaurada. (...)"

                                        Friedrich Nietzsche - "O Nascimento da tragédia no espírito da música".

domingo, 21 de novembro de 2010

Elis Regina - Querelas do Brasil

Muito obrigadA.

Sempre me pareceu estranho o fato de a maior parte das mulheres, ao agradecerem, dizerem "muito obrigado", com "o" no final. Isso porque a nossa língua portuguesa, contestada por ser considerada machista  no entender de muitos - lembro até de um professor de português da época do ensino médio, Jorge, que sempre lembrava a mão dos machos nos ditames do idioma - apresentar uma forma de agradecimento no gênero feminino.

A mesma língua que nos dicionários apresenta em seus verbetes os vocábulos sempre no masculino, tendo este como referencial, proporciona às mulheres a possibilidade de agradecer de maneira única. Pois , então, não caberia nem cabe bem para mim, por exemplo, retribuir com um "muito obrigada" qualquer demonstração ou ato de generosidade ou favor.


Por isso, sem querer aqui ser bastião da língua, que ouçamos mais as mulheres fazerem a sua parte ao agradeerem, numa espécie assim de quase feminismo  estendido ao campo da língua- mas não tão radical, por favor! -, elas tão úncas e caras a nós homens, e que merecem sua distinção.


Izak Dahora   

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Agradeço aqui pela presença de mais seguidores acompanhando alguns dos frutos inquietos da minha ávida imaginação de filho único, artista, romântico, intenso cara que sou - ou tento ser, "A gente é o que sonha", já disse alguma vez um poeta. Comentem, critiquem (elegantemente, claro!), sigam (se for o caso), divulguem (se eu for merecedor!). Abraços carinhosos do Izak Dahora.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Napolitanos


Quando eu era criança não concebia a possibilidade de se gostar de sorvetes napolitanos. Considerava, na minha maquinação inconsciente que agora reconheço, falta de personalidade dedicar-se degustivamente, dentro de uma só vez, a três sabores diferentes - e, naquele meu ver, sabores tão incompatíveis.

Aliás, terá sido mesmo ao sul do país da bota onde surgiu essa heresia tri-sabor?

O sabor baunilha, que no meu limitado repertório de então só podia ser côco, era para mim sem graça, tão apático quanto a sua cor. A seu lado o chocolate, bem o chocolate eu fazia questão de não não gostar porque em toda minha infância eu fui alérgico a certos tipos de alimentos, especialmente os carregados da gordura característica do cacau. Nem preciso dizer que meus pais descobriram a tal alergia por conta do que resultou de mim após uma ingestão irrefreada do material mais ofertado em época de Páscoa na casa de toda vó generosa: comecei a criar caroços por todo o corpo e, além de parecer um E.T., parecia que ia explodir. Tive que aprender a não gostar.

Já o morango, minha fruta predileta da infância, mais até do que in natura e sim recheada nos biscoitos e nas guloseimas envenenadas de aromas e cores artificiais, me fazia revoltado diante já das embalagens dos napolitanos. Não admitia que minha fruta tão dileta dividisse espaço com outras, para mim nem mesmo dignas de papel coadjuvante, e de reles categoria.

E agora, divagando um pouco, penso que jamais poderia torcer para time de escudo tricolor, por exemplo. Minha aversão está originalmente ligada ao meu trauma com aquele sabor de sorvete. Que não era sabor, era sabores. Sorvete mau-caráter, duas caras, digo melhor: três caras! Lembro de quando rompi com a família e me tornei rubro-negro. Deve talvez até tratar-se de alguma predisposição genética (darwinismo) ou de alguma pulsão incosciente (Freud explica!) esse meu par de opção-aversão que começou nos sorvetes e alastrou-se vida afora.

É isso!! Eureca!!! Você pode até não não compreender – mas é como se eu estivesse fazendo uma descoberta terapêutica. Descobri a raiz do meu trauma/repulsa em relação aos objetos tripartidos!!!! Catapultaaaaa!!!! Será que me darei bem com a tecnologia 3D?? Ai meu Deus!!!!

Enfim, é curioso e engraçado, jamais quis ver aquele creme rósea com pedaços da cítrica fruta causando água na boca sem ser em carreira solo. E, no entanto hoje, sou um quase chocólatra como toda pessoa normal e admito um sorvete de côco vez ou outra. Mas os três juntos, nem pensar! Neuras à parte, em época de campanha eleitoral marcada pela hipocrisia e sistema político-partidário de cultural infidelidade, continuo, pelo menos, coerente e fiel aos princípios ideológicos das minhas papilas gustativas. Por isso: "Nada de promiscuidades na hora do sorvete!" ; "Viva o purismo moranguista!" ; "Dia 24 vote no rosa dos morangos"... E por aí eu poderia seguir na minha alucinação anti-napolitana...

P.S.: E pensar que adentrei numa quase teoria sobre tema tão esdrúxulo por conta da leitura que ando fazendo sobre texto do semiólogo e crítico francês Roland Barthes, em que é mencionado o clima de tensão entre as bandeiras ideológicas (preta, vemelha e tricololor) da crise por que passou Paris durante o maio de 68.


(Izak Dahora)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Projeto de prolixo.

                        à tirania do verbo, do verso e da linguagem

eu quero falar cada vez menos.
eu quero falar mais com menos.
quero falar menos para ouvir os falantes de outras falanges
e satisfazer meu interlocutor de entendimento.
quero dizer tudo com aparentemente nada
eu quero falar menos difícil e ser claro como a água.
eu quero meu monólogo de um modo mais diálogo
menos bife e mais grãos. menos texto mais contexto.
Eu quero eu menos só
                                  lilóquio.


(Izak Dahora)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Quase. Ou presente imperfeito.

estado de juntas querendo estalar
qual sensação prévia em ver vaso caindo
qual torção da mão sobre o caule da planta partindo

mas não estala
não cai
e nem chega a partir

aflição.

Auto-definição do artista.

E tendo que escrever um trabalho para uma disciplina da faculdade sobre "Por que sou artista?" - o tema mais complexo de escrever que já encarei, pois sou artista porque simplesmente não sei ser de outro modo -, me deparo no jornal (O Globo) de algumas semanas atrás com esta frase-definição de Geraldinho Carneiro, contemporâneo e querido poeta, quanto a si próprio como escritor:

"Sou um velho biscateiro intelectual, vivo rodando bolsinha no calçadão da cultura brasileira. Mas não faço qualquer biscate, não. Sou aquela vadia de bom gosto, metida a besta".

Bem que traduz o turbilhão de facetas que a gente que é artista desdobra para poder viver desse delírio que é a arte e encher nossa barriga. Ele ainda disse na entrevista a Arnaldo Bloch, que como Shakespeare, só escreve por encomenda, para vencer o tédio da repetição - "Shakespeare mesmo, por exemplo, só fez um poema de moto próprio".

Não é o máximo?!