destinado à escrita poética que se estende em reflexões sobre arte e cultura, além de divagações e pensamentos sobre trabalhos artísticos
segunda-feira, 1 de março de 2010
Colecionador de saber!
Lamentando aqui a morte de José Mindlin. Num país que, segundo as estatísticas, lê-se pouco e sofre-se o infortúnio continuado da corrupção no poder - haja galho de "arruda" -, a pessoa humana de Mindlin só dignifica o Brasil. Que saibamos fazer bom uso de seu acervo pessoal doado à USP e que seu amor e sua dedicação aos livros nos sirva de inspiração todos os dias. Foi Monteiro Lobato quem disse que um país se faz de homens e livros.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Elegia Carlos Drummond de Andrade Ganhei (perdi) meu dia. E baixa a coisa fria também chamada noite, e o frio ao frio em bruma se entrelaçam, num suspiro. E me pergunto e me respiro na fuga deste dia que era mil para mim que esperava, os grandes sóis violentos, me sentia tão rico deste dia e lá se foi secreto, ao serro frio. Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera bem antes sua vaga pedraria ? Mas quando me perdi, se estou perdido antes de haver nascido e me nasci votado à perda de frutos que não tenho nem colhia ? Gastei meu dia. Nele me perdi. De tantas perdas uma clara via por certo se abriria de mim a mim, estrela fria. As arvores lá fora se meditam. O inverno é quente em mim, que o estou berçando e em mim vai derretendo este torrão de sal que está chorando. Ah, chega de lamento e versos ditos ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça, ao ouvido do muro, ao liso ouvido gotejante de uma piscina que não sabe o tempo, e fia seu tapete de água, distraída. E vou me recolher ao cofre de fantasmas, que a notícia de perdidos lá não chegue nem açule os olhos policiais do amor-vigia. Não me procurem que me perdi eu mesmo como os homens se matam, e as enguias à loca se recolhem, na água fria. Dia, espelho de projeto não vivido, e contudo viver era tão flamas na promessa dos deuses; e é tão ríspido em meio aos oratórios já vazios em que a alma barroca tenta confortar-se mas só vislumbra o frio noutro frio. Meu Deus, essência estranha ao vaso que me sinto, ou forma vã, pois que, eu essência, não habito vossa arquitetura imerecida; meu Deus e meu conflito, nem vos dou conta de mim nem desafio as garras inefáveis: eis que assisto a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo de me tornar planície em que já pisam servos e bois e militares em serviço da sombra, e uma criança que o tempo novo me anuncia e nega. Terra a que me inclino sob o frio de minha testa que se alonga, e sinto mais presente quando aspiro em ti o fumo antigo dos parentes, minha terra, me tens; e teu cativo passeias brandamente como ao que vai morrer se estende a vista de espaços luminosos, intocáveis: em mim o que resiste são teus poros. E sou meu próprio frio que me fecho Corto o frio da folha. Sou teu frio. E sou meu próprio frio que me fecho longe do amor desabitado e líquido, amor em que me amaram, me feriram sete vezes por dia em sete dias de sete vidas de ouro, amor, fonte de eterno frio, minha pena deserta, ao fim de março, amor, quem contaria ? E já não sei se é jogo, ou se poesia. | |
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domingo, 14 de fevereiro de 2010
Bambas e poetas!
Mais do que bambas eles são verdadeiros poetas. Cartola, Nelson Sargento, Cavaquinho e outros mais enriquecem o cancioneiro e a poesia desse país. E não deixam de nos deixar, a cada vez de ouví-los, perplexos diante de tamanha profundiade e mesmo sofisticação lírica em indivíduos oriundos de contextos sociais tão ignorados pelo poder público e pela História.
Cartola, Sargento e Cavaquinho ilustram, representam aqui uma porção de bambas que precisam ser ouvidos e lidos - seus versos mantêm vida literária!
Ainda é cedo amor
Mal começastes a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó.
Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés
(Cartola)
Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando.
Quando o tempo avisar
Que não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade
(Nelson Cavaquinho)
Samba,
Agoniza mas não morre,
Alguém sempre te socorre,
Antes do suspiro derradeiro.
Samba,
Negro, forte, destemido,
Foi duramente perseguido,
Na esquina, no botequim, no terreiro.
Samba,
Inocente, pé-no-chão,
A fidalguia do salão,
Te abraçou, te envolveu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você nem percebeu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você nem percebeu.
(Nelson Sargento)
Agoniza mas não morre,
Alguém sempre te socorre,
Antes do suspiro derradeiro.
Samba,
Negro, forte, destemido,
Foi duramente perseguido,
Na esquina, no botequim, no terreiro.
Samba,
Inocente, pé-no-chão,
A fidalguia do salão,
Te abraçou, te envolveu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você nem percebeu,
Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você nem percebeu.
(Nelson Sargento)
domingo, 24 de janeiro de 2010
Notas de um país se rumo; um caos que desvela outro caos.
Uma das notícias do jornal de hoje me desola. Não bastasse a fama inglória e atroz de ser o país mais pobre das Américas, o Haiti é assolado por um catastrófico terremoto. Mas até aí "tudo bem", causticamente se poderia dizer, afinal, o que houve por lá, região já massacrada historicamente por embargos econômicos sobre a revolução negra que lá se fez - muito antes do Brasil, aliás - e por ditaduras políticas internas, foi da ordem da tragédia, e tragédia não se discute, sofre-se e reconsrói-se dela.
O que realmente causou-me desalento foi ler a notícia de que grande parte da mão-de-obra haitiana especializada para a assistência de situações por que o país hoje vive morreu; que 85% dos seus universitários - num país altamente marcado pela pobreza e pelo analfabetismo - encontram-se, de fato, em outros países; que, provavelmente, nunca se saiba ao certo quantos se perderam nesse cataclisma; isso somado à ciência de que algo em torno de 70% do país, na sua infra-estrutura, foi ao chão.
Diante de um país, cuja sede de governo literalmente foi desmoronada, vê-se um Haiti, apesar dos esforços internacionais e da triste impotência de seu presidente René Préval, acéfalo, pelo menos no plano simbólico das suas instituições - e da sua identidade e alto estima. As cenas de disputa por comida são terríveis para a condição humana.
(No entanto, cultivo aqui a fé de que aquele otimismo e aquela alegria estranha do povo vindo de África, que sempre sofreu, mas sempre demonstrou uma capacidade de superação desconcertante nas entoos de seus cantos e danças, voltarão).
O que dói mais fundo mesmo é a constatação de que, além do cenário de destruição, o pouco de know-how formal por lá produzido até então, de escola, de educação, de universidades existentes, em função do isolamento e embargo histórico, da pobreza e das ditaduras locais , foi subtraído (ainda mais) pela tragédia.
É óbvio que o Haiti precisará de muito apoio da comunidade internacional para que estas cores reencontrem um sentido de esperança. Uma das muitas estimativas por ora feitas aponta para daqui a quinze anos a reconstrução do que agora se vê destruído. É muito tempo! O tempo de uma geração a mais a comungar da miséria, do sofrimento, e, provavelmente, da falta de perspectiva haitiana.
Há cerca de dois dias a imagem de uma senhora de mais de oitenta anos sendo resgatada, ferida e esquálida, me incomodavam. Mas talvez algo me angustie e incomode ainda mais: que precisemos de terremotos como esse para perceber que mesmo antes disso há um outro tipo de caos e de abalo, o da pobreza e da miséria que desertificam, desnutrem e deixam esquálidos seres humanos - os que sofrem e os que oprimem.
(Izak Dahora)
O que realmente causou-me desalento foi ler a notícia de que grande parte da mão-de-obra haitiana especializada para a assistência de situações por que o país hoje vive morreu; que 85% dos seus universitários - num país altamente marcado pela pobreza e pelo analfabetismo - encontram-se, de fato, em outros países; que, provavelmente, nunca se saiba ao certo quantos se perderam nesse cataclisma; isso somado à ciência de que algo em torno de 70% do país, na sua infra-estrutura, foi ao chão.
Diante de um país, cuja sede de governo literalmente foi desmoronada, vê-se um Haiti, apesar dos esforços internacionais e da triste impotência de seu presidente René Préval, acéfalo, pelo menos no plano simbólico das suas instituições - e da sua identidade e alto estima. As cenas de disputa por comida são terríveis para a condição humana.
(No entanto, cultivo aqui a fé de que aquele otimismo e aquela alegria estranha do povo vindo de África, que sempre sofreu, mas sempre demonstrou uma capacidade de superação desconcertante nas entoos de seus cantos e danças, voltarão).
O que dói mais fundo mesmo é a constatação de que, além do cenário de destruição, o pouco de know-how formal por lá produzido até então, de escola, de educação, de universidades existentes, em função do isolamento e embargo histórico, da pobreza e das ditaduras locais , foi subtraído (ainda mais) pela tragédia.
É óbvio que o Haiti precisará de muito apoio da comunidade internacional para que estas cores reencontrem um sentido de esperança. Uma das muitas estimativas por ora feitas aponta para daqui a quinze anos a reconstrução do que agora se vê destruído. É muito tempo! O tempo de uma geração a mais a comungar da miséria, do sofrimento, e, provavelmente, da falta de perspectiva haitiana.
Há cerca de dois dias a imagem de uma senhora de mais de oitenta anos sendo resgatada, ferida e esquálida, me incomodavam. Mas talvez algo me angustie e incomode ainda mais: que precisemos de terremotos como esse para perceber que mesmo antes disso há um outro tipo de caos e de abalo, o da pobreza e da miséria que desertificam, desnutrem e deixam esquálidos seres humanos - os que sofrem e os que oprimem.
(Izak Dahora)
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Excerto de entrevista!
"Tudo é útil. Quem quer escrever tem que se sentir bem escrevendo, tem que tolerar a solidão, ter intimidade com as palavras, merecer a amizade delas, ter um bom acervo de vida — de observação ou de imaginação. Tem que ser inquieto, curioso — o preguiçoso se esvazia rápido. A literatura, claro, é fundamental. Assim como o cinema e o teatro. Uma leitura profunda de Shakespeare vale mais que duzentos cursos. Dramaturgo brasileiro não pode viver sem Nelson Rodrigues, e assim por diante. Se quiser escrever para televisão e cinema tem que saber como os filmes e programas são produzidos. Cursos específicos são bons porque orientam os primeiros passos e é onde o estudante pode entrar em contato com os roteiros de cinema, de televisão, capítulos de novela etc. — que em geral, não estão à venda nas livrarias. Quanto mais se freqüenta a linguagem para a qual se vai escrever, melhor. E, finalmente, é bom viver a própria vida com ênfase. Para, acima de tudo, ter o que dizer."
(Denise Bandeira, roteirista, atriz e diretora. Entrevista feita para o Jornal Plástico Bolha)
domingo, 10 de janeiro de 2010
Grande atriz!

"O teatro me resgata de momentos difíceis. Posso não acertar em certas peças, mas o trabalho me dá um norte na vida".
(Renata Sorrah, em entrevista ao Jornal do Brasil, em 10/01/2010)
Intensa, dona de extensa e admirável carreira no teatro e na televisão, esta atriz tem o meu respeito pelo talento excepcional e especialmente pelas escolhas, parcerias e repertório nos palcos. No dia 15 próximo, Renata, que já foi Medéia, Mary Stuart, Antígona e Ismênia, entre tantas outras mulheres de extrema densidade, estreia no Rio sua mais nova empreitada teatral: Lady, de "Macbeth", do grande Shakespeare.
E eu que não sou tolo nem nada, não deixarei de assistir a essa grande atriz mais uma vez!
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Feliz 2010!

Jamais, em qualquer época próxima da virada de ano - seja antes ou depois do calor da passagem, do rito, dos fogos - deixo de pensar num determinado poema de Drummond. Sua obra, aliás, é mais que presente em minha vida. Drummond é o que costumo chamar de "poeta pés-no-chão", moderno (e modernista!), que abandona a rima pela rima do verso ornamental, que abraça a visão crua e até pessimista da vida, e ainda assim nos encanta e demonstra beleza. A beleza dos olhos lúcidos, objetivos na sua subjetividade e poético.
Feliz 2010 para todos nos versos de Drummond!
RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
domingo, 3 de maio de 2009
Pensar grande!

Morreu na madrugada deste sábado, 02/05, o homem, ou melhor, o cidadão que, talvez, melhor viu o teatro a paritr do Braisl como ferramenta de transformação pelo homem do seu meio social.
É claro que tivemos diversas outras pessoas engajadas com a ideologia e com o teatro, mas é que Boal sempre foi incansável, preparou-se da melhor maneira para isso, formou-se e desenvolveu-se intelectualmente em refletir sobre isso que todo mundo finge não ver que é o caos e a alienação social do homem, mesmo quando as circunstâncias não lhe foram favoráveis. Perseguido, torturado e exilado, passou pela Argentina (também obscura politicamente), chegou aos Estados Unidos para, felizmente, aprofundar-se em dramaturgia ao invés de engenharia química, e, em seguida, viveu na França o apogeu de sua criação cem por cento brasileira, o Teatro do Oprimido, porque gestada especialmente a partir dos conflitos da nossa terra, terceiro-mundo, a partir da experiência de opressão dos nossos dirigentes e da nossa mediocridade.
Boal foi grande porque pensou grande! Acreditou no teatro. E o que todos nós podemos fazer em homenagem a ele, agora, é trabalharmos, muito, sermos incansáveis - especialmente nós, militantes da arte do teatro, pois fazer teatro profundo, reflexivo e crítico é cada vez mais um ato de resistência, em tempos em que é mais fácil ceder ao consumismo barato e à alienação (ou omissão) de que existe a África, de que existe a Ásia, de que existe o Brasil e tantos mais (imersos na fome e na miséria) da forma que existem.
Nunca vou me esquecer da leitura de Revolução na América do Sul. Nunca vou me esquecer da importância dada pelo teórico Boal num de seus textos à contradição no trabalho do ator - pois toda situação e mesmo todo personagem profundo tem mais de um lado e mais de um interesse, já mostrava Brecht...
No fundo, acho que Boal recebeu em vida aquilo que seu grande trabalho merecia - reconhecimento de grandes entidades especializadas, prestígio intelectual e artístico etc etc etc. Mas o fato de a maior parte do Brasil não saber quem foi Augusto Boal me angustia, pois vejo a alienação e a escravidão persistirem. Saber quem ele foi e quais foram suas ideias é mais do que concordar política e esteticamente com ele. O Brasil precisa merecer o Boal! (Parafraseio Caetano quando este falou da Bossa Nova). Que ironia: não saber quem foi este pensador do teatro e do mundo é repetir a atitude ignorante do protagonista de sua peça acima citada (Revolução...). Que loucura, a peça, depois de quarenta anos, continua tristemente atual e faz de seu autor sua própria vítima, seu oprimido, seu invisível - não que Boal se incomodásse com isso. O problema é do país.
Morreu o maior teórico teatral brasileiro com projeção mundial; um homem que pensou grande o teatro e as suas possibilidades de colaborar com a sociedade. Morreu o homem que acreditou que a liberdade o homem só conquista com consciência dos fatos e ação - isto chama cidadania! Morreu o cara que transformou a mediocridade do mundo em conhecimento e instrumentos profundos.
Lembro-me agora de "Meu caro amigo", canção de Chico Buarque e Francis Hime, cuja letra mandava notícias do Brasil dos anos de chumbo a quem ("meu caro amigo", identidade oculta na canção) fui descobrir depois que era Boal exilado. Chico fez a canção e a enviou numa fita-cassete para o exterior - rumo ao amigo.
"Meu caro amigo me perdoe, por favor, se não lhe faço uma visita...mas o que eu quero lhe dizer é que a coisa aqui "tá" preta..."
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