No último fim de semana, fui assistir ao novo filme de Pedro Almodóvar.
Narrativa estruturada em duas diferentes camadas, o filme nos faz rever, ao longo da exibição, quem é o protagonista da história e apresenta “Natal amargo” como criação sobre o processo de criar.
E se uma ideia interessante não vem à mente criadora durante longos anos, desafiando o status e o ego do artista? E se as estruturas do sistema de arte/criação cobram? E se o artista, ele mesmo, em crise, cobra-se a si próprio, ferido em sua vaidade? E se histórias delicadas de outros lhes vêm como oportunidade? E os limites éticos de utilizá-las?
Enfim, Almodóvar faz um filme sobre criar e diversos dos seus vãos e desvãos. Interessante pensar nisso quando o cineasta espanhol declarou recentemente sobre sua busca por novas parcerias na criação de roteiros e filmes, como forma de manter-se vivo do ponto de vista criativo, experimentando novas possibilidades. Almodóvar declarou também recentemente que lançará seu primeiro romance neste ano. Seja no cinema, seja em outra linguagem, o que se observa é um artista, de 76 anos, consagrado, mas que experimenta os limites da criação.
Em “Natal amargo”, Almodóvar cria pelo menos 2 planos sobre o ato de criar, em instigante jogo metalinguístico: na crise criativa vivida por um escritor cuja história atual (o outro plano narrativo) envolve uma mulher madura que, como cineasta, busca seu reconhecimento. E consideremos que temos ainda o próprio Almodóvar, que cria essa trama de reflexividades, como um espelho. Tal criação do cineasta vem a ser o terceiro plano desse jogo de filme dentro do filme ou de criação dentro da criação,que discute o ato de criar dentro de uma criação. Metalinguagem!
Certa vez, uma professora me ensinou que toda criação é, em alguma medida, autobiográfica. Algumas explicitam esse aspecto. Não por acaso, em alguns países o novo filme do cineasta espanhol chama “Autoficção”.
“Natal amargo” é cinema de alta qualidade. A trilha, por exemplo, fez com que eu me aprofundasse ainda mais na densidade das personagens e suas questões.

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