quarta-feira, 19 de maio de 2010

A quatro mãos ou a duas cabeças.

Certo dia desses que já não sei mais ao certo, agora certamente perdido nas cercanias da memória, postei no twitter a frase que, na verdade, venho tentando há muito ser o verso inicial de um novo poema:

"A esperança tem cara de criança".

O que fez uma amiga minha, Luciá Tavares, através da instantaneidade da ferramenta, nova febre da internet, arrematar:

"A esperança tem cara de criança
Mas é a última que morre".

Recorreu ao ditado popular, me intrigou no nexo possível da síntese que se produziu dos dois versos e esse pequeno mistério, contraditório como todos os mistérios - diga-se - ficou na minha cabeça.


(Izak Dahora)

sábado, 24 de abril de 2010

A Walt Whitman



assumo minhas multidões,
minhas galeras ensandecidas,
minhas mais profundas vagas
alternando entre calmarias e ressacas.
meu eu entre meu lado augusto e meu lado podre do povo
que afaga mas também lincha em praça pública.

asssumo e vos digo: vivo em paz. me contradigo.
assumo então as imperfeições e faço meu resumo:

de todas as minhas várias facções, duas merecem
especial atenção, embora existencialmente desorganizadas.
uma é a arte, solo em que me expresso, o verbo, o verso
e a outra é a sede amar, quase sempre sem reverso,
e de que nunca me disperso:
minha condenação feliz e reincidente.


(Izak Dahora)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Brasil e a morte do presidente da Polônia - o que a morte de um líder tão distante fez-me sentir e pensar.



A morte do presidente da Polônia há duas semanas fez-me pensar no abismo que se abre e na tragédia que se abate no coração de um país. Uma situação como essa faz-me pensar que uma nação tem sim um coração, um sentimento comum que - apesar das divergências internas possíveis expressas nas oposições políticas - corre nas veias de um grupo de pessoas.

A perda do executivo de um cargo tão simbólico é inimaginável e catastrófica, quase irreparável. O presidente da república, assim como um monarca (mesmo sem a pompa deste) é tão ligada no imaginário de todos à ideia de força, que ninguém vislumbra normalmente um líder morrer de forma tão repentina. Porque a função do líder, penso, embora não nos demos conta disso muito racionalmente no correr dos dias, é fazer as pessoas terem força, estimular o crescimento material e psicológico de todos através de sua ação e de sua presença, a qual pede e envolve um magnetismo pessoal, carisma – equilibrada com sua competência, claro.

E o que se deu na Polônia com a morte trágica de Lech Kaczynski e de boa parte sua equipe de governo (incluindo primeira-dama e altos funcionários) provoca exatamente o efeito contrário. O país ficou acéfalo sem sua referência construída pelo voto popular e desnorteado emocionalmente.

Não vivi a era Kennedy, mas quem viveu compartilhou junto da História uma frustração que, sem exageros, arrástasse até os dias atuais, lá nos quintais do coração de quem passou por aquele golpe do destino. Ainda mais no caso de um político de tamanha popularidade e que trazia consigo a promessa de anos tão democráticos.

Mesmo assim, a perda do representante político máximo de uma sociedade – e arrisco-me a dizer: seja em regime democrático como em sistemas fechados e autoritários em que se formam grandes personalismos e ligação emocional com o povo – causa desalento e nenhum político sensato, na minha opinião, deveria comprazer-se de tal infortúnio. Porque esse tipo de perda desestabiliza, mexe com o brio da coletividade. (Sadam Husseim, um sanguinário, foi morto, mas havia quem o aprovasse. Além disso, sua morte causou mudança e destruição em tudo que se possa imaginar. Por isso a questão é delicada, pois afeta a todos, irreversivelmente).

No caso de um presidente ser um fracasso no governo, tudo bem, não sendo algo mais urgente, no pleito seguinte se pode tirá-lo – isso nas democracias, que não era o caso de Sadam! Porque ver alguém não cumprir todo um mandato é sempre decepcionante. Não é bom. No caso de uma democracia ,uma perda motivada por óbito ou por um impeachtment, que seja, enfraquece a sequência prevista das instituições políticas e ainda abre uma ameaçadora e possível brecha, o chamado vácuo no poder, oportuno para os aventureiros e megalômanos que existem por aí e sempre insistem em se aproveitar dos momentos de forte comoção e fragilidade nacional.

Ora, ascenção de Hitler e do nazismo foi, mal comparando, mais ou menos assim, emergiada do caos. Não exatamente precedida pela morte de alguém, mas o país vivia um vácuo de liderança política contundente, de alguém que pudésse inspirar seu povo a seguir – Alemanha pobre, inflcionada, sem perspectivas de crescimento, sem esperança; daí um ser midiático prometendo a pujança local via nacionalismo radical. Deu no que deu: quantos holocaustos!

Que dirá isso numa democracia históricamente interrompida, cambaleante e letárgica como a brasileira, por exemplo, aqui um país não sério, dos "jeitinhos" (em todas as esferas e escalas, aliás)! Nossa história recente tem Tancredo Neves e Fernando Collor para ilustrar o tema, dois casos distintos. O primeiro, suficientemente respeitado por todos, era o símbolo de uma retomada lenta, gradual e segura porém conquistada que ,de uma noite para o dia seguinte, deixou o país triste e temeroso com o que poderia voltar a acontecer. E o segundo, a meu ver, representa a perda da confiança depositada por uma nação carente de liberdade e  de respeito cerceados em graus progressivos entre 1964 e o início da década de 80. Também uma forma de luto, que com luta, o povo teve de zelar para a democracia seguir em paz o seu curso.

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Lembro-me agora de um episódio que soube assistindo a uma entrevista do ex-governador Leonel Brizola, já falecido. Disse ele que na ocasião próxima da resolução do impeachment do então presidente Collor, ele, Brizola, foi ter com Collor no seu gabinete para dizer-lhe mais ou menos o seguinte:

-Resista, presidente, resista! Se o senhor estiver errado, a justiça provará e será penalizado, mas seja forte para que coisas piores do que essa situação tão negativa e desgastante, não aconteçam.

Pode parecer um contra-senso, mas Brizola quis aludir, creio, à vulnerabilidade em que o país poderia ficar com um presidente que pedisse a renúncia, por exemplo, ou, sei lá, desse cabo da própria vida ante a pressão da opinião pública (esse tipo de evasão transtorna emocionalmente o povo e política pede a razão). Qualquer uma das alternativas poriam o Brasil, ainda recém-saído de uma ditadura de mais de vinte anos, no risco novamente. Brizola teve, mesmo enquanto opositor, um gesto de grandeza e sabedoria política. O melhor que tinha a ser feito foi feito: os Caras-pintadas (o povo) foram às ruas e o Congresso não teve outra atitude a tomar que não fosse o pedido de impeachment. Mesmo o impeachment não sendo o processo dos mais interessantes e agradáveis para um país - e igualmente arriscado no caso do Brasil.

Remontei o episódio acima para reforçar, com a "preocupação" do ex-governador Brizola, como que uma abrupta saída de cena de um executivo pode ser danosa, em todos os sentidos. Seja ela trágica e imprevisível ou fabricada e evasiva. A morte de Getúlio Vargas, ao que tudo indica até hoje ter sido um suicídio, mitificou uma figura altamente controvertida. Seu autoritarismo que estava sendo como nunca criticado veementemente, ficou nublado pelo baque profundo de sua morte num povo extremamente emocional. "Saiu da vida para entrar, ("redimido"), na história".

O choque é verdadeiro, a dor é sincera, mas os erros podem ficar imperceptíveis onde só há espaço para a piedade (mas também qual a fómula de se controlá-la?) A piedade, esta forma até mesmo mesquinha , judaico-cristã, forma de expiar nossas culpas mostrando que sentimos pena de alguém.
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Não sei dos pormenores da política polonesa, não sei se Lech Kaczynski era, de fato, um bom representante naquele mar mafioso dos poderosos do leste europeu. Não sei se foi fatalidade ou atentado bem sucedido, nada. Também não é desejo meu afirmar qualquer coisa neste sentido. Hoje só quis falar (e digredir) dessa perda que se abate sobre o poder, seu caráter complexo e ambíguo, e que se reflete na vida de muitos milhões, abrindo quase sempre um futuro de incertezas e inseguranças. Foi tocante ver o desconcerto dos semblantes poloneses diante da tragédia. Um misto de orfandade e de um não crer no que estava acontecendo: um pesadelo.


Izak Dahora

terça-feira, 6 de abril de 2010



o dia em que o Rio virou rio

o dia em que o Rio de Janeiro virou um rio
ou correnteza em que barcos navegavam errantes
pelas ruas do Jardim Botânico à Praça da Bandeira.

pensei ter-se cumprido em prenúncio a profecia maia
de que o planeta seria consumido pelas águas.
2012 antecipar-se-ia. E o Rio iria. Nunca mais.

recordei e bendisse, uma vez mais, Chico Buarque
em seu lírico cenário de futuros amantes
e quase fui um esfrandrista que cruzou a nado a cidade
rumando de uma longínqua Taquara zona oeste,
a Baía de Guanabara atravessando em busca de seu abraço
em Niterói.

o dia em que o Rio de Janeiro virou um rio de abril,
depois das águas de março,
dia 6 de abril, quase o dia da mentira.

Rio,
que nas suas águas um dia lembrou o Tejo,
era a miséria urbana de grande monumento falido.

o dia em que a Lagoa virou poça diante do quase mar que era a cidade
rodeada pelos lagos que eram Gávea, Botafogo e Humaitá.
Ilha Grande nem pensar!

da água barracenta deslizada dos morros assoreando esgotos
pensei que iríamos ao fim, no fundo, junto ao líquido venenoso dos ratos rotos.

estávamos ilhados, semi-Ulisses multiplicados,
e em derredor a cidade deserta de água e chuva.
oásis sinistro, balneário transbordado.

o tempo virou
e os cariocas viraram nos botes.

toque de recolher para dentro das casas, apartamentos e automóveis.
eu, refém-novo da tecnologia, twittando qualquer coisa:

quando as ruas eram rios,
procurando nisso tudo, a ver navios,
qualquer notícia de você.


                                    P.S.: Um dia, este dia,  
                                        por uma força íntima e otimista, 
                                           será apenas um conto fantástico nas imaginações.


                                                        (Izak Dahora)

sexta-feira, 26 de março de 2010


A(mar)

o que fazer do amor
se o amor traz dentro de si um mar
que nós, mesmo no após de carmas e milênios
insistimos naufragar?
mar de suicidas.
amar: um decreto.
amar verbo intransitivo, inconsequente e indiscreto.
o amar no corpo lugar onde se reza,
a paz, a plenitude, a linha de chegada,
a chaga.
a embarcação a rebentar num porto qualquer e seu cais.
Veneza, venéreas, carnavais.


(Izak Dahora)

quinta-feira, 25 de março de 2010

O poeta menor e seus nenúfares.



E não é que há duas semanas, já escoadas junto das águas do mês de março, foi o Dia Nacional da Poesia? (Surpresa, espanto, perplexidade!). Numa época em que se reafirmam gêneros e suportes literários pseudo-objetivos e imediatos (twitter, a nova onda), em que se parece decretar o fim de formas tradicionais como a poesia e até mesmo o romance, saber disso é, sim, algo digno de nota. Mais ainda descobrir que alguém esperou a chegada deste dia e a celebrou no calendário.

Este alguém não fui eu e, não fosse João Ubaldo – assim falando parece até que somos íntimos do famoso "Chá das cinco" -, em sua crônica do último 14, um domingo, eu jamais saberia da existência da data.

Recebi ainda agora a notícia com muito contento, quase euforia. Digo "ainda agora", pois a leitura da crônica acabou ficando para depois de quando deveria ser. Leitor alucinado, ando sempre atulhado de coisas para ler e, endividado eterno com as letras, vou empilhando os jornais pelos cantos do quarto. (Com o tempo descobri que para matar a ansiedade de ler todos os poemas e romances e contos e etc fundamentais, clássicos ou contemporâneos, preciso ser anárquico: ler tudo ao mesmo tempo. Então, é claro que posso me pegar lendo uma crônica sobre um grande ato político, por exemplo, uns dez dias após a realização do evento. Eu sei, trata-se de uma patologia).

E digo que fiquei em "quase euforia" pelo fato de ser mais um a me arriscar na escrita aqui dos meus versinhos. Ora herméticos ora insossos são meus e eu os estimo. E saber do Dia Nacional da Poesia (com maiúsculas!) fez-me sentir parte desse balaio.

Mas não sei se me chamaria um poeta. Nem sei se me pretendo a tanto – pelo menos não com a rigorosa pompa com que sempre foram tratados os poetas. Diria que sou um poeteiro, uma versão degradada das grandes figuras imortalizadas e repetindo em mim, por uma força maior que me move, aquela mesma alma errante, fascinada pela mulher amada e distante, pelos mistérios insolúveis da existência e de um forte que de nostalgia embriagando-me o ser de pretenso boêmio.

Nesta crônica, então, assumo-me como poetastro que sou (um trava-língua existencial) mas não vou transcrever aqui nenhum dos meus versos. Não lhes darei o gosto amargo da minha mediocridade (que agora a lucidez brazcubiana me faz sintetizar) ou o doce sabor, delicioso e deliciante, de um escasso momento de possível glória literária.

Eu, que já passei dos vinte anos, ainda não morri, seja por tuberculose ou causa similar, e não tenho sífilis, talvez por fugir de todos esses clichês românticos jamais serei um grande poeta, segundo os célebres moldes, como lembra João Ubaldo no seu texto. Mas o mundo e o Brasil de hoje não querem mesmo saber de poetas! Sigo na clandestinidade.

Contudo, e ainda que atrasado, meus contidos parabéns a mim e a todos os poetas!
Obrigado por lembrar-me disso, João Ubaldo!


P.S.: Você deve estar se perguntando que relação tem com o texto acima aquele "nenúfares" no título, não é mesmo? É que meu "amigo" João Ubaldo falava em sua crônica de nenúfar, nome exótico, atraente e de aparência culta, com que batizou um malogrado poema sem sentido de sua autoria que escreveu na juventude – nem sabendo o que aquilo queria dizer, mas empolgado pela sonoridade da palavra. Só que o baiano danado não revelou o significado do termo na sua crônica. Lançou o desafio e fui, então, ao Aurélio: planta ninfeácea (erva aquática) de belas flores, como a vitória-régia.

Eu também já escrevi os meus "nenúfares" sem-sentido. Vários, aliás.



Izak Dahora

segunda-feira, 15 de março de 2010

A fingida dor da atriz


A Revista O Globo, suplemento do jornal homônimo, publicou no último dia sete deste mês uma entrevista que muito me instigou (e continua instigando). Nem preciso dizer que o foi em função de tocar com agudeza e profundidade o trabalho do ator e a construção narrativa – questões que me muito me suscitam interesse e prazer (pessoal, intelectual e profissional).

O entrevistado era Eduardo Coutinho, diretor de Cabra marcado para morrer, Edifício Master e Santo Forte, dentre muitas outras contribuições fílmicas importantes e decisivas no aperfeiçoamento da linguagem do documentário no Brasil. Seu trabalho, junto ao de sua equipe, é respeitado, premiado e dispensa comentários adicionais.

Pois bem, a repórter Luciana Pessanha concentrou suas perguntas nos dois últimos documentários de Coutinho e este foi o eixo da sua entrevista. O entrevistado proporcionou o que considero uma preciosa luz no pensamento da construção cênica. Ele, que, apesar de já ter incurscionado no início da carreira pela ficção, até por estar hoje em dia, digamos, "do lado de lá" da elaboração e da reflexão ficcional, revelou nuances que, por vezes, "nós" que "estamos do lado de dentro", custamos a perceber ou, simplesmente, não percebemos. Mas é evidente que um documentarista – o qual lida constantemente com histórias, fatos e versões – domina em seu vocabuário e em sua gramática noções e termos que fazem também o dia a dia dos atores, diretores de teatro, dramaturgos, roteiristas e cineastas. Que dirá um documentarista do calibre de Coutinho.

O primeiro ponto da entrevista que me provocou, no melhor dos sentidos, foi logo na terceira resposta, depois de o diretor ser questionado sobre o que investigava em termos de linguagem ao escolher a participação de atrizes para encenarem depoimentos reais. Daí, ele afirmou a convicção (gerada a partir da longa experiência com o público) de que, no ato de narrar histórias, a forma como se conta sobrepõem-se ao que é contado, instaurando toda uma sintaxe, um vocabulário e uma expressividade particulares de quem narra. E independente de o conteúdo ser "verdadeiro" ou "falso", dada também a complexidade de se aferir o que é verdade e o que é mentira – e por parte do próprio narrador, ele indica -, pois tudo o que se conta e se transmite tem a ver – além da consciência e do interesse particular de cada um -, com a instância da memória, seu inverso natural que é o esquecimento, e o inato poder de invenção (advindo da imaginação humana). Ou seja, narrar é todo um processo demasiado amplo e sensível e, que conta, inevitavelmente, com a representação.

E isto pode ser assustador, porém absolutamente aceitável quando pensamos que até para convencer um amigo, quanto a qualquer narrativa que seja, numa conversa banal de botequim, a gente prescisa recorrer a técnicas da interpretação, da representação, para que sejamos "compreendidos" – ou para que , no mínimo, achemos que nos fizemos entender.

Uma de suas muitíssimas entrevistadas ao longo do tempo, uma garota de programa, ofereceu o que o próprio Coutinho considerou a própria definição de documentário: que seria em outras palavras, uma mentira dita com o peso de uma verdade. "(...) Disse que inventou uma avó, mas tinha que contar muito bem a história, até que passou a acreditar que tinha avó (...)".

São muitos os psiquismos da nossa mente humana!

Segue Coutinho:

"Por que então não ter atrizes, se as histórias são tão produto do imaginário? Ninguém é dono da sua história (frase que serviu de título à matéria). A dor da atriz é fingida, e é melhor do que a sua. Isso socializa a fala, que é de todo mundo e de ninguém".

Por isso a gente se arvora na arte de contar histórias, por isso a gente interpreta e é ator, por exemplo. Porque isso nos preenche um vazio que é da condição de humano.

Parafraseando o título de uma peça, e agora filme, ambos com direção de Cristiane Jathahy, trata-se uma "falta que nos move" (o subtítulo do filme é "Ou todas as histórias são ficção"). Precisamos de histórias (além de outras coisas, claro) e "pedimos" para sermos reabastecidos, simultaneamente ao movimento de também reabastecermos os outros de narrativas.
Por isso leio avidamente a Odisséia, de Homero, e em meio a sucessões de trechos absolutamente "fantásticos" (aos olhos real) persisto interessadíssimo na leitura, porque há alguma coisa naqueles mitos (na verdade muitas) que encerram humanidade. Eis aquele velho processo da identificação. Aquelas cenas que já foram contadas e recontadas por muitos ao longo dos séculos - distorcidas, aumentadas etc - investem-se de exemplaridade por conta dessa capacidade de aglutinação, dessa pluralidade humana, dessa aproximação com o outro e são, por isso,"melhores" que, de repente, uma versão pretensamente objetiva e ultra-individual acerca de um fato. Uma versão imaginada, ficcionalizada, que é mais verdadeira que a própria verdade. Os poetas, doces marginais, estão por aí desde sempre recontando a "História".

"A dor da atriz é fingida, e é melhor do que a sua". Carrego obssessivamente esta frase comigo e, desde a primeira leitura que fiz - em que normalmente não se pode ainda aprofundar as questões, ela me inquieta. Tanto que algo fez com que eu imediatamente a ligasse no meu cérebro ao poema Autopsicografia de Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
(...)

Detalhe: psicografia, que, segundo o verbete de Aurélio Buarque de Holanda, quer dizer, numa das definições possíveis, "descrição dos fatos da mente".

O outro ponto que me causou aquela coceirinha na inteligência e me fez ler e reler por diversas vezes a mesma resposta foi no trecho em que Coutinho relembra o documentário Jogo de Cena na atuação de Fernanda Torres – excelente atriz! - e fala de um momento de impasse da intérprete durante o processo. Impasse que teria sido causado pela busca da intérprete em falar de maneira igual à uma das pessoas que tivera seu depoimento colhido pela equipe do documentário e que lhe servia de texto. Coutinho pediu, então, para ela não buscar esse mimetismo e, com isso, a atriz teria ficado desnorteada, dizendo não saber onde estava em termos de lugar da fala, de ponto de vista, que em sua visão, a princípio, não deveria ser o seu. E ao que tudo indica, Coutinho queria que ela se apropriasse da fala como se fosse sua, desconstruindo, assim, o tradicional processo de construção do ator.

O resultado do trabalho de Fernanda foi elogiadíssimo - como aliás suas atuações costumam ser - mas pensando sobre seu suposto momento de dificuldade, digamos que tenha sido um movimento meramente natural de todo ator (e me incluo nisso!) de representar, de encontrar um distanciamento para uma voz que vai se revelar: a do personagem. Um procedimento que ocorre com praticamente todas as pessoas quando se colocam no lugar de narrador, aliás.

Lendo e relendo a matéria, às vezes fico sem saber direito ainda o nível exato de correlação possivelmente existente entre o conteúdo da matéria e o poema de Pessoa – você que me lê, pode me ajudar! -, mas me parece haver um ponto de encontro nítido, feliz e muito mais denso do que parece. O poeta descreve não só o fazer do poeta – e isto escrito por um extraordinário criador de heterônimos que ele foi -, como também o processo comum de todo artista, que é desafiado neste documentário intrigante e instigante de Coutinho. E eu nem o assisti ainda!

Os tais momentos da entrevista que tentei trazer aqui - e que provocaram na minha mente pequenas reflexões-síntese que elaborei abaixo - ao fim e ao cabo muitos já elaboraram e, certamente, de maneira muito melhor. Ei-los:

A verdade é antes do que é ou possa ser, factualmente, a verdade, aquilo que se sente verdade. E a experiência da arte favorece imensamente tal raciocínio.

Transformam-se os suportes (oral, impresso, livro, blog...) mas a necessidade humana de histórias permanece.


Izak Dahora

quinta-feira, 11 de março de 2010

Em teus braços como nunca dantes

O que é que tu dirias
Se dissesse agora
Que te amo?
Que me amas, em resposta?
Ou a volúpia da caprichosa alma feminina
Omitiria o teu segredo?
Saiba, amor,
Hoje, teu silêncio
É meu degredo.
Mas minha nau
Independente da tua resposta singular
Precisa partir – e rumo a mundos distantes...
Porém, não minto, muito mais feliz
Se, ao meu apreço, consoante
Dentro dela tu fosses.
E então com a fúria de nossa paixão,
Ela, agora nossa nau, muito mais pronta
A vencer moinhos, tormentas, batalhas cruentas,
A cruzar os mares,
Contornar périplos
E atingir enfim a façanha
do nosso Novo Mundo:
um mundo de sonhos e carícias
erguido a suor e sangue do meu, do nosso corpo.
E sendo então a nossa vida assim,
Mastrearia eu flâmulas
com tua face e nome.
À qual vivacidade o mundo em oceano nunca destoa
Meu leme, minha gávea, minha proa.

(Izak Dahora)

sexta-feira, 5 de março de 2010

um corpo que escorre

eu me interesso por muitas coisas:
signos, caras, cores, pessoas.
universos de contrários ou iguais,
tudo me instiga, provoca, ressoa
e tudo a isso me instiga, me impele.

sou movido a símbolos!
preciso sempre urgentemente de metáforas.

para ver se compreendo a vida pelo avesso,
para ver se criando climas, entre os climas e os clímaxs
percebo a vida no que há de poesia
contida nas pausas curtas e ligeiras do tempo

para ver se decifro-a,
simples e difícil,
melíflua
entre os dedos


(Izak Dahora)