Um filme sobre atores, diretores, peças de teatro e... filmes. Mas quem não é do ramo, não se preocupe: há questões humanas ligadas a dramas familiares que enlaçam a todos.
A relação atriz-diretor pode ser especialmente difícil quando ambos são pai e filha de contexto familiar conturbado. Na história, pai e filha (Renate Reinsve) são o diretor e a atriz de nova e provavelmente última produção de Gustav (Stellan Skarsgard), cineasta e pai ausente.
Em meio aos destroços de memórias afetivas delicadas (de despedidas e ausências traumáticas), mantém-se de pé um símbolo (legítimo personagem, que pontua todo o filme), a casa, que vem lembrá-los de seus vínculos, carregando consigo lembranças que fazem doer e alguma tentativa de fazer dela um lar, valor sentimental sadio e minimamente harmônico. Algo que seja promessa de vida, literalmente.
O filme dirigido por Joachim Trier traz inúmeras referências a situações que quem é do meio artístico, reconhece, de imediato: da ansiedade antes de entrar em cena; necessidade de produzir os próprios trabalhos e não depender de convites para trabalhar; diretores que não gostam de ir ao teatro assistir aos atores; ao pragmatismo de mercado representado na trama por uma citadíssima Netflix. Tudo temperado com humor e alguma acidez.
A trama ambientada em Oslo não deixa de evocar referências do teatro e do cinema escandinavo. A protagonista chama Nora, mesmo nome da protagonista desbravadora de “Casa de Bonecas”, do norueguês Henrik Ibsen. Há uma densidade psicológica que remete também a nomes como o cineasta sueco Ingmar Bergman.
Sem dar spoiller, há dois golpes de cinema no filme que me deixaram estupefato, o primeiro mais cerebral e o segundo com particular emoção, ao final - quando já estamos em profunda emoção. Os dois "golpes" associados à linha tênue que "confunde" ficção e realidade, atriz e personagem. Truque usado com delicadeza para expressar, através da montagem e de planos reveladores, a proposta do roteiro.
“Valor sentimental” é filme sobre o poder de reaproximação de uma família por meio da arte. Toca em questões e sentimentos realmente profundos. Elenco de alto nível (destacando também a outra “filha”, Agnes, vivida por Inga Ibsdotter Lileaas).Trilha sonora surpreendente, especialmente a canção final, “Cannok Chase”, de Labi Siffre).

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